Uma história, múltiplos narradores

Saber escolher o narrador certo para contar sua história é uma das chaves para publicar livro que cative o público. Está no nome do próprio gênero: narrativa. Essa voz que relata os eventos do seu enredo é o guia que define a experiência do leitor. É nessa escolha que você trilha a linha tênue entre o fracasso e o sucesso.

Hoje, nas dicas de autopublicação da Bibliomundi, vamos falar sobre diferentes narradores… em uma história só. Ou, alternativamente, um narrador onisciente múltiplo, com diversos focos narrativos. Em outras palavras: como escrever um livro cuja narrativa segue mais de um personagem-foco, mostrando diferentes pontos de vista.

Os diferentes tipos de narrador

Antes de mais nada, você precisa entender muito bem quais os tipos de narrador que existem para poder tomar uma decisão informada sobre como deseja conduzir sua narrativa.

Podemos dividir os narradores em duas categorias mais abrangentes: narrativa em primeira pessoa e narrativa em terceira pessoa.

Os narradores que contam a história em primeira pessoa são tipicamente personagens que fazem parte da história. Nesta categoria, os dois modelos mais comuns são narradores protagonistas e narradores testemunhas, isto é, uma personagem que vivenciou esses eventos como coadjuvante e conta a história do protagonista (ex.: Dr. John H. Watson, narrador da série Sherlock Holmes).

A narrativa em terceira pessoa, por sua vez, costuma contar com um narrador onisciente. Isto é, um narrador que não é personagem e que tem acesso a todas as informações dentro dessa história, inclusive no que diz respeito aos pensamentos e sentimentos das personagens. O narrador onisciente pode ser:

  • Neutro, que relata os eventos de forma imparcial, sem tentativas de influenciar o leitor;
  • Intruso, com opiniões e posicionamentos próprios, podendo inclusive fazer divagações filosóficas;
  • De discurso indireto livre, cuja voz se mescla com a da personagem-foco, embora siga se comunicando em terceira pessoa. Pode ser visto como um porta-voz dos sentimentos, opiniões e até mesmo estilo de fala da personagem-foco.

Ainda na narrativa em terceira pessoa, existe também o narrador observador, que não é onisciente. Trata-se de um narrador que não participa da trama, não é personagem, mas cuja perspectiva tem certas limitações. Normalmente, o narrador observador não “lê os pensamentos” das personagens, apenas narra com neutralidade os eventos do enredo conforme se desenrolam.

Quando falamos em uma história com múltiplos pontos de vista, estamos falando de uma história que segue diferentes personagens-foco por vez. Ou seja, é como se a “personagem principal” mudasse em determinadas cenas.

Isso não significa que ao observar o enredo como um todo, cada personagem-foco conte como protagonista da sua história. Às vezes, um livro começa contando a história do ponto de vista de uma personagem coadjuvante, quase uma figurante, que morre logo na primeira cena. Essa personagem obviamente não é a protagonista.

Contudo, naquela cena específica, acompanhamos o ponto de vista dessa personagem. Ela era o centro da narrativa daquela cena. A ação girava em torno dela. É isso que significa ser uma personagem-foco.

Para que uma história siga diferentes focos narrativos, ela tipicamente precisa optar entre um narrador personagem, que possa relatar em primeira mão os eventos que vivenciou, ou um narrador onisciente múltiplo.

É importante ressaltar que não basta que esse narrador onisciente fale de forma impessoal e igualitária sobre diferentes personagens, pois dessa forma não há mudança no foco narrativo. A ideia é que esse narrador, mesmo que em terceira pessoa, seja limitado a um ponto de vista por vez. O discurso indireto livre pode ser um ótimo recurso para mostrar essa mudança em foco narrativo.

Como inserir diferentes pontos de vista em uma única história?

Bem, apresentamos os diferentes tipos de narrador que você pode usar em sua história. Agora é pensar em como usar esse conhecimento ao seu favor.

O “procedimento padrão” em uma narrativa é optar por apenas um narrador e seguir com ele até o fim. Esse é o caminho mais seguro, com maiores chances de manter o leitor imerso na leitura. Acertar na voz narrativa por si só já é difícil. Quanto mais você varia, mais arriscado fica.

Um passo para variar o narrador que funciona bem, sem muitas dificuldades, e é usado em muitos livros é a inclusão de um narrador a mais que se apresenta em momentos precisos da história. Mais precisamente, o começo e o fim.

Explicando um pouco melhor, nesse modelo, o livro começa e termina com um “narrador A”, mas os pontos centrais do enredo são transmitidos por um “narrador B” que vivenciou esses eventos em primeira mão.

Esse “narrador B” pode ser uma personagem viva que resolveu contar uma história do passado diretamente ao “narrador A”. Também pode ser uma personagem póstuma ou não identificada, que escreveu um diário (ou um blog, ou gravou uma série de áudios, etc.) que foi encontrado pelo “narrador A”.

Em Entrevista Com o Vampiro, de Anne Rice, “o narrador A” é o repórter que entrevista o vampiro Louis de Pointe du Lac. Aqui, o próprio protagonista da história, Louis, cumpre a função de “narrador B”.

Em O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, conhecemos a história dos protagonistas Catherine e Heathcliff através dos narradores Lockwood (A), um forasteiro que é recebido por Heathcliff a negócios e desenvolve enorme curiosidade em relação ao protagonista, e Nelly (B), a governanta que lhe conta o que ocorreu no passado. Em resumo, toda a história é contada na base da fofoca.

É interessante observar que, ao optar por uma história contada inteiramente por narradores personagens, como é o caso de ambos os livros citados, o que você apresenta ao leitor é uma narrativa não confiável. Isto é, o leitor não tem acesso à verdade absoluta e a perspectiva de cada personagem influencia a narrativa.

Caso você queira escrever seu livro em terceira pessoa, você pode fazer como George R. R. Martin nas Crônicas de Gelo e Fogo: aposte no discurso indireto livre, com o limite de um personagem-foco por capítulo. Dessa forma, em cada capítulo você acompanha o ponto de vista de uma personagem específica.

A série de livros, que deu origem ao seriado Game of Thrones, conta com um elenco amplo e múltiplas tramas relevantes que ocorrem simultaneamente. Cada “núcleo” tem motivações e prioridades distintas, de modo que a história se tornaria muito mais simples caso o foco narrativo fosse voltado para apenas uma personagem.

Uma característica interessante da narrativa nas Crônicas de Gelo e Fogo é que ela não se limita a um pequeno grupo de personagens. Até agora, os livros contam com mais de trinta personagens-foco, que podem ser separados em três categorias:

  • Personagens de prólogo e/ou epílogo – tipicamente só aparecem no prólogo e/ou epílogo de cada livro, morrendo ao fim do capítulo
  • Personagens principais – são as personagens mais relevantes da narrativa, que normalmente estão envolvidas nos principais eventos do enredo. Os títulos dos capítulos com foco narrativo nos protagonistas costumam ser apenas o nome da personagem
  • Personagens coadjuvantes – são personagens não tão importantes para o enredo, que tornam-se personagens-foco apenas quando necessário para a narrativa. Neste caso, o título do capítulo costuma ser descritivo

Embora exista uma variação no foco narrativo, em todos os exemplos citados os autores optaram por apenas um modo narrativo: primeira pessoa ou terceira pessoa. Dessa forma, sua narrativa consegue manter uma consistência.

É possível mesclar a primeira e a terceira pessoa em uma narrativa, mas essa mescla deve ser coerente dentro do enredo. Sendo a narrativa predominantemente em terceira pessoa, deve haver uma explicação na própria história para a aparição de um narrador em primeira pessoa. Por exemplo, com a presença de um diário ou de uma personagem que resolveu narrar um evento específico.

Dicas para acertar na variação de foco narrativo

O problema mais comum em ebooks com múltiplos focos narrativos é a falta de organização e consistência na narração, o que faz com que o leitor nem saiba mais sobre quem está lendo. É um erro fatal, capaz de levar qualquer leitor a abandonar a sua história.

Portanto, para encerrar o artigo de hoje, vamos deixar aqui algumas dicas que você deve considerar com muito carinho ao publicar ebook com múltiplos focos narrativos. O objetivo é proporcionar uma narrativa organizada e cativante, que, em vez de repelir, conquista o leitor.

  1. Não misture diferentes focos narrativos, cada ponto de vista deve ter um espaço delimitado

De preferência, siga apenas uma personagem-foco por cena ou capítulo. A transição entre focos narrativos deve ser óbvia para o leitor. A cada mudança no foco narrativo, sinalize imediatamente quem é a personagem-foco.

  1. Desenvolva vozes distintas para cada personagem-foco

Uma das graças de se ler um livro com diferentes narradores (ou pontos de vista) é observar as particularidades de cada personagem-foco. O seu jeito de falar, sua visão de mundo, a maneira que enfrenta e analisa as situações. Quando você opta por escrever múltiplos focos narrativos, a importância da voz de cada personagem também se multiplica.

  1. Considere qual ponto de vista é mais interessante para cada cena

Use os múltiplos focos narrativos ao seu favor. Considere as necessidades do enredo antes de escolher qual será a personagem-foco da vez.

  1. Evite repetições desnecessárias

Em geral, o leitor não está interessado em ler uma mesma cena de novo e de novo sob o ponto de vista de diversas personagens. Só recorra à repetição quando você puder trazer uma experiência única ao leitor em cada versão da história.

  1. Desenvolva um padrão para as transições de foco narrativo

Uma boa forma de preparar o leitor para as transições de foco narrativo é estabelecendo padrões para as transições. Como esses padrões funcionam depende muito de cada história e cada autor. Por exemplo, você pode alternar o foco narrativo a cada capítulo, sem falta. Ou pode determinar um estilo de título para cada capítulo de acordo com a personagem-foco. Aqui, você pode usar sua criatividade, desde que o resultado seja relativamente regrado.

E aí, autor? Já se aventurou nos múltiplos focos narrativos?

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