Resgatando gêneros tradicionais em ebook

Já foi o Carnaval, época das marchinhas, dos blocos, dos desfiles, do frevo, das manifestações culturais do nosso Brasil, cada região com suas cores e sabores, dançando conforme a música e revivendo todo ano a maior festa que você jamais verá.

Carnaval tem gosto de presente, mas também é gosto de tradição. É nosso passado ancestral se reinventando, é pão, circo e resistência. É de altos e baixos, numa dança frenética, é a calma intensa da apuração.

Sem dúvidas, o Carnaval carrega muito do que é nosso, e há arte pura nessa festa. Inspirando-se nesse clima, resolvemos falar de gêneros tradicionais da nossa literatura e em como podemos resgatá-los (se é que precisam de ajuda) em meio a era digital. Escolhemos falar sobre o cordel, considerado patrimônio cultural do Brasil.

Da oralidade até a literatura de cordel, será possível manter nossas tradições em formato ebook? É o que descobriremos hoje.

Se você gosta de estudar a literatura sob um viés analítico, já deve conhecer “O Narrador” de Walter Benjamin. Segundo ele, a narrativa está morta. Trata-se de uma tradição oral, ancestral, que depende de certas condições de trabalho que já não existem mais. A verdadeira narrativa deveria ser passada de um narrador ao outro e, nessa transmissão, ganhar novas camadas, tornar-se cada vez mais rica.

Hoje, nossas histórias são escritas, transmitidas diretamente do autor para o leitor. Lidas em silêncio, absorvidas de maneira solitária. São cada vez menos práticas, cada vez mais melancólicas.

Contudo, para toda tradição que se perde, há alguém disposto a reinventá-la. Basta ler Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, por exemplo, para encontrar no romance escrito toda a sensação da oralidade.

A narrativa do livro é uma mimese da situação oral: o narrador é o protagonista, que está contando sua história para outra personagem, um doutor da cidade, homem de estudos. É o encontro do sertão das tradições arcaicas com a mentalidade urbana, a mentalidade do leitor.

A literatura de cordel, por exemplo, é um dos gêneros literários mais tradicionais que podemos pensar no cenário nacional. Sua origem vem da Europa, mas seu coração se encontrou no Nordeste. Tem forma escrita, mas toda a sua construção é baseada na oralidade: as histórias são divididas em versos rimados, quase uma música. E o seu modo de produção e venda é peculiar: são folhinhas impressas com estêncil, então penduradas em cordas para serem vendidas. Por isso o nome cordel.

Para o cordel ser cordel, ele deve ser impresso, deve ser pendurado na corda. Deve ter esse jeito simples, que vive em suas raízes. E também deve ser organizado em versos, ter esse toque da oralidade, ainda que escrito. Como traduzir isso em ebooks?

Bem, no próprio site da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, há uma página para cordéis digitalizados, onde ainda é possível ver as imagens bem tradicionais do cordel em papel, mas as palavras são digitadas. É uma preservação do antigo, mas com novas formas de acesso.

Seguindo essa lógica, é possível, sim, trazer as graças do cordel para o digital. Seja através das palavras, exclusivamente, como foi a mimese da narrativa oral feita por Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, ou talvez adotando mais elementos gráficos que caracterizam o cordel.

Observando a obra poética de Rupi Kaur, por exemplo, aprendemos muito sobre como mesclar imagem e poesia, inclusive no formato Epub. Você pode publicar ebook com uma capa no exato estilo dos cordéis e, no interior do livro, misturar outros elementos visuais com os versos digitados. Outra possibilidade é privilegiar totalmente a estética tradicional, digitalizando todas as páginas.

Seja como for, pode até ser que você não crie um cordel propriamente dito, afinal, em que corda se pendura um ebook? Mas, sem dúvidas, terá feito sua contribuição para manter sempre viva essa tradição.

E, caso você queira, é sempre possível preparar o seu próprio cordel feito de papel e tinta. Afinal, a pura simplicidade do cordel é o que o torna acessível para todos, é o que permite que todos sejam autores. No mais tradicional dos cordéis, há autopublicação, e os cordelistas podem ser autores independentes.

Quer saber mais sobre essa tradição? Visite a Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Com sede localizada no boêmio bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, e uma loja no pavilhão da Feira de São Cristóvão, lá você encontrará um amplo acervo de obras de cordel.

E aí, já parou para apreciar a cultura brasileira hoje? Publicar livro de cordel pode ser o caminho que você estava procurando. Dê uma olhada no nosso artigo Autopublicação e tendências: ebooks de poemas para se informar mais!

Para as editoras de plantão, lançamos a pergunta: e vocês, já pensaram em como contribuir para a preservação e modernização de gêneros tradicionais?

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