Representatividade e leitores sensíveis

Existem certos cuidados que precisamos tomar ao publicar livro que não reflete a nossa realidade imediata. Por exemplo, é importante pesquisar antes de escrever um livro de ficção científica ou romance histórico. Dependendo do tema abordado no livro, é até mesmo recomendável contratar um especialista que possa realizar uma consultoria ou revisar seu livro.

Nada novo sob o sol, a maioria dos autores já está familiarizado com essa função. Contudo, hoje em dia está cada vez mais comum um tipo de consultoria diferenciado, feito para autores que querem escrever sobre grupos sociais dos quais eles não fazem parte. Trata-se da leitura sensível, também conhecida como leitura de sensibilidade.

Essa nova profissão, que ainda é novidade no Brasil, trouxe algumas polêmicas. Para muitos, a ideia de uma leitura sensível parece similar à censura, pois, em tese, torna a literatura “politicamente correta”, o que pode podar a criatividade dos autores. Na prática, a leitura sensível não é um bicho de sete cabeças. Para começo de conversa, ninguém é obrigado a contratar um leitor sensível, muito menos a seguir as sugestões oferecidas pelo profissional.

“Se não é obrigatório, para que existe?” Talvez seja essa a pergunta que veio a sua mente. Bem, o leitor sensível, assim como o revisor histórico, busca tornar o seu texto mais verossímil, autêntico. Em outras palavras, seu livro ficará mais bem feito. E, de fato, parte do interesse na leitura sensível está associada ao “politicamente correto”, por assim dizer.

É uma lógica simples: se você escreve um livro com uma protagonista muçulmana, por exemplo, é provável que muitas mulheres muçulmanas se interessem pelo seu livro. Caso você represente esse grupo de maneira inverossímil, é provável que essas mulheres não só desgostem do seu trabalho, como o critiquem publicamente, pois você terá contribuindo para a perpetuação de mitos prejudiciais às muçulmanas. Em troca, seu livro será mal recebido e você também terá problemas como autor.

Pense bem. Se um estrangeiro escrever um livro que se passa no Brasil, o mínimo que nós esperamos é que o livro reflita de maneira fiel a nossa realidade. Sim, isso pode incluir violência e corrupção, mas todos ficaríamos chateados se as personagens falassem espanhol e por via de regra tivessem macacos de estimação.

Como pessoas latinas, sabemos bem o que é ser pouco representado na mídia internacional. Quase sempre, a boa literatura que se passa no Brasil é feita por nós, brasileiros, porque temos conhecimento de causa. Isso não significa que estrangeiros não possam escrever histórias que se passam no Brasil, ainda que algumas pessoas gostassem que fosse desse jeito. A literatura é de todos para todos, afinal. A autopublicação está aí para garantir isso.

O caminho para que um estrangeiro possa escrever uma boa história passada no Brasil é pesquisa extensiva e, se possível, a contratação de um leitor sensível.

Mas o que o leitor sensível faz?

A leitura de sensibilidade, como o nome sugere, consiste em uma espécie de revisão do livro, que visa avaliar a maneira que determinado grupo é representado. Em geral, o leitor sensível busca encontrar no texto reprodução de discurso de ódio que não contribua para a narrativa, reprodução de estereótipos e/ou mitos sobre determinado grupo, uso de linguagem ofensiva sem necessidade ou questionamentos. Ou seja, demonstrações do preconceito e/ou ignorância do próprio autor.

Ao encontrar os problemas mencionados acima, o leitor sensível oferece soluções possíveis. Por exemplo, pode apontar quais termos são ofensivos, explicar quais práticas não refletem a realidade do grupo, quais caminhos seriam mais verossímeis e até mesmo sugerir fontes de pesquisa sobre assuntos que o autor nitidamente não domina.

As sugestões do leitor sensível podem ser apresentadas em um relatório sobre seu livro ou como anotações em cima do texto, de acordo com as preferências de cada profissional.

O leitor sensível não reescreve seu texto, muito menos age como um editor, que pode reorganizar seu enredo caso necessário. Sua função é apenas oferecer sugestões, que o autor pode escolher seguir ou não, mas que certamente enriquecerão o seu texto e o farão enxergar possibilidades que não existiam antes.

Voltando ao exemplo de um estrangeiro escrevendo sobre o Brasil, somente nós conhecemos as nuances da nossa cultura, nosso jeito de comer feijão com arroz todos os dias, de receber o outro calorosamente, de dizer “vamos” e nunca marcar a bendita saída, de usar nossa criatividade inesgotável seja para fazer memes ou sacadas geniais de marketing amador, tudo que faz o melhor do Brasil ser o brasileiro.

É preciso estar imerso nesta cultura para reproduzi-la com fidelidade, e o leitor sensível está disposto a “emprestar” sua imersão para que o autor viva um pouquinho uma vida que não é a sua. O mesmo vale para grupos minoritários, ainda que não pareça.

Por exemplo, é comum que autores que não façam parte da comunidade LGBT+ escrevam apenas uma ou duas personagens LGBT por livro. Contudo, quem faz parte da comunidade LGBT+ sabe que, em geral, as pessoas da comunidade estão sempre unidas e fazem amizades majoritariamente entre si. Logo, é mais verossímil escrever um livro com várias personagens LGBT+ do que apenas uma ou duas para “bater a cota”.

Quando o assunto são personagens negras, por sua vez, é importante estar ciente das diversas micro agressões que as pessoas negras sofrem diariamente, mas que não afetam pessoas brancas. Por exemplo, quando uma pessoa negra vai fazer compras e é seguida dentro da loja por suspeita de roubo. Situações que passam despercebidas para pessoas brancas podem afetar profundamente o dia-a-dia de uma pessoa negra.

Onde estão os leitores sensíveis?

O mercado dos leitores sensíveis ainda é muito novo no Brasil, mas já existem profissionais capazes e dispostos a realizar o serviço. Como se trata de uma função que faz parte do processo editorial, é uma boa ideia procurar entre profissionais do mercado editorial ou grupos de militância.

É necessário que o profissional faça parte e tenha amplo conhecimento sobre o grupo desejado, além de ter experiência como autor, editor, crítico ou estudioso da literatura. Por exemplo, se você escrever um livro com uma protagonista transgênero, a leitora sensível também deve ser transgênero.

Quanto ao orçamento, Alliah, escritor e leitor sensível para personagens trans/não-binários e bissexuais, cobra R$ 0,02 por palavra. Contudo, o preço por palavra da leitura sensível ainda não é tabelado no país, e cada profissional pode estabelecer um valor diferente conforme considerar adequado.

Se você faz parte de alguma minoria e tem experiência como escritor, editor, entre outros, pode se tornar um leitor sensível também! Um bom começo é oferecer leituras gratuitas ou por preços camaradas para conhecidos e, em troca, solicitar cartas de recomendação ou o uso da obra como parte do seu portfólio. Isso e, é claro, entrar em contato com outros leitores sensíveis para conhecer o seu trabalho.

E aí, autor? O que acha de contratar um leitor sensível para dar uma olhada no seu texto?

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