Quando devo escrever cenas de luta?

Se você acompanha as dicas de autopublicação da Bibliomundi, já deve ter lido o nosso artigo Como escrever cenas de luta em um livro. Hoje, o tema é um pouquinho diferente. Não vamos focar no como, e sim no quando.

É isso mesmo que você leu. A dúvida que vamos tirar hoje é: quando você deve incluir uma cena de luta em seu livro?

Ao publicar ebook, especialmente como um autor independente, temos a liberdade criativa para escrever o que quiser e como quiser. Você pode publicar livro dos mais diversos gêneros, explorar seus nichos favoritos e até mesmo quebrar todas as “regrinhas” implícitas da literatura quando bem entender.

Contudo, nem todas as nossas ideias são boas ideias. Por isso que existem editores, leitores críticos, entre outros profissionais que podem nos ajudar a filtrar o que está bom e o que está ruim nos nossos livros.

Hoje, vamos ajudar você a filtrar as cenas de luta, tanto antes quanto depois de escrevê-las. Está na dúvida sobre quando deve encaixar uma cena cheia de ação e violência? Está na dúvida se deve cortar a cena que já escreveu? Agora é a hora de aprender.

O que é necessário para uma cena de luta acontecer

Um ângulo que recomendamos para quem está na dúvida sobre escrever cenas de luta é pensar nelas não apenas como um recurso narrativo, mas como um evento. O que leva uma pessoa a brigar com alguém? O que faz um conflito se tornar violento?

A ideia é que você reflita sobre a natureza por traz de brigas violentas e tente entender se esse evento sequer aconteceria na sua história. A partir daí, você pode começar a contextualizar.

1.      Sua personagem se meteria numa briga?

O primeiro passo aqui é compreender a sua personagem. Como é seu temperamento? Ela é uma pessoa impulsiva? É volátil? Tem algum histórico de tendências violentas? Todas essas características podem contribuir para que ela entre numa briga.

Considere também as formas que essa personagem tende a lidar com o conflito. Ela tende a internalizar tudo? Ela tenta conversar? Ela sempre “arma o barraco”? Lembre-se que muitas vezes (mas nem sempre) o cão que ladra não morde. Uma pessoa que reprime os sentimentos pode ser exatamente quem está a um passo de explodir.

Em seguida, pense também nas condições em que sua personagem está nessa cena. Por acaso ela está sob o efeito de drogas? Ou quem sabe está bêbada? Esses fatores também podem contribuir fortemente para que ela brigue ou não.

Lembrando que enquanto determinadas substâncias podem tornar sua personagem mais suscetível a brigas, outras podem ter o efeito contrário. Algumas substâncias acalmam. Alternativamente, sua personagem pode estar sem remédios que são necessários para controlar seu humor.

Fatores emocionais também podem escalar a situação, mesmo que não tenham a ver com ela diretamente. Pode ser que sua personagem tenha tido um dia horrível e, no fim, apareça uma pessoa que não tem nada a ver com isso e sua personagem resolva descontar nela.

Leve tudo isso em consideração.

2.      Por que essa briga aconteceria?

Passando pela primeira etapa, você já tem alguma ideia se seria possível sua personagem se meter em um conflito físico ou não. Agora é hora de se aprofundar no contexto e refletir sobre a cena que você quer escrever: Qual o motivo do conflito? Por que ele escalaria até se tornar uma luta?

Somando a personalidade das suas personagens, as condições em que elas se encontram nesta cena e o motivo por trás do conflito (que se resume às duas perguntas mencionadas no parágrafo acima), você deve encontrar a resposta definitiva para a dúvida “isso daria em briga?”.

É fundamental considerar o que as personagens têm a ganhar ou perder com essa luta.

Uma pessoa frustrada, que sente que não tem nada a perder, pode se meter em brigas com certa facilidade só para descontar o estresse. Outras pessoas podem racionalizar se isso as levaria a perder o emprego, ir para a cadeia ou até a probabilidade de perder para o adversário em questão.

E quanto aos ganhos, podem ser palpáveis ou não. Por exemplo, a disputa entre um ladrão que quer roubar um celular e a pessoa que não quer perdê-lo. O ganho é palpável: um celular.

Por sua vez, uma briga por “honra” tem ganho subjetivo. O motivo pode ser por que uma das partes foi traída pela pessoa amada e quer brigar com o amante. O que se ganha com isso? Talvez a pessoa traída sinta que restaurou sua honra ao dar uma “lição” na concorrência.

Se a vitória na luta fará ela se sentir melhor ou não, é totalmente subjetivo. Mas ainda assim, ela embarca na luta em busca de satisfação pessoal.

Existe um sistema desenvolvido por Gavin deBecker, especialista em avaliação de ameaças, para definir a probabilidade de uma pessoa engajar em comportamentos violentos. São quatro palavras: Justificativa, Alternativas, Consequências, Habilidade.

  • Justificativa – a pessoa deve sentir que suas ações violentas são justas
  • Alternativa – a pessoa deve acreditar que não há alternativa a não ser a violência
  • Consequências – a pessoa não deve se preocupar com as consequências das suas ações
  • Habilidade – a pessoa deve ter habilidade suficiente para cumprir o que ameaça

Se a sua personagem se encaixa nessas quatro características, considerando o contexto onde a briga aconteceria, as chances da luta ocorrer de fato são altas.

É interessante observar aqui, no entanto, que em momento algum nesse sistema surge a palavra “raiva”. O que precisamos compreender é que a raiva é uma emoção secundária, que costuma ser engatilhada por outro sentimento.

Primeiro sentimos medo, inveja, rejeição, arrependimento, vergonha, entre outros sentimentos. Depois vem a raiva, que surge como um mecanismo de defesa após o acúmulo de outros sentimentos negativos.

Isso não significa que esses sentimentos precisem de tempo para se acumular. Não é como se fosse sempre a história do menino que sofria bullying por anos até resolver se vingar.

Não, estamos falando de um sistema de ação e reação do cérebro, que pode ocorrer em questão de segundos. Um comentário maldoso pode atacar suas inseguranças, que por sua vez deixam você com raiva. Mas o único motivo para você ficar com raiva desse comentário é porque ele acertou onde dói: na sua insegurança.

Entenda por que um gatilho é um gatilho para sua personagem. Não basta ter uma provocação da outra parte. Por que essa provocação mexe com sua personagem ao ponto de levar a uma briga? Essa é a chave.

Quando manter uma cena de luta na edição final do seu livro

Por fim, a última reflexão do dia: Quando incluir uma cena de luta no seu livro? Quando não apagar essa cena na etapa de revisão?

A questão aqui é que muitas coisas podem acontecer na vida de uma personagem. Em tese, ela é como qualquer pessoa real, sua vida não é feita apenas de momentos interessantes.

O que diferencia a vida real dos livros é a filtragem. Mesmo quando apostamos no realismo em uma obra, nunca escrevemos como se tudo fosse exatamente igual à vida real. O motivo é simples. Um livro precisa ser interessante e, para isso, ele não pode ser uma transcrição detalhada de tudo que aconteceu na vida da sua personagem desde que ela nasceu.

Em outras palavras, tudo que não é relevante para a história deve ser cortado. E uma briga não é relevante (ou sequer interessante) só porque envolve ação.

As cenas de luta devem contribuir para o enredo e para a caracterização das personagens.

Uma maneira bem simples de determinar quando uma cena de luta contribui para o enredo é deletando ela. Sim. Imagine o seu livro sem essa cena. A história ainda faz sentido? Ou parece que faltou uma peça crucial do quebra-cabeça?

Se as respostas forem Não e Sim, respectivamente, é para você manter a cena.

E quanto à caracterização, a cena de luta deve revelar algo sobre a personagem que é importante para o leitor saber. Não precisa ser uma revelação verbal com todas as letras (não estamos sugerindo nada como um “eu sou seu pai” no meio da cena).

No entanto, pode ser interessante para o leitor descobrir que uma personagem até então reservada tinha tanta raiva guardada. Ou que determinado tópico é sensível o bastante para ativar um gatilho na personagem. Em certos gêneros literários, pode ser uma revelação das verdadeiras habilidades da personagem.

É claro, seu leitor não precisa saber de absolutamente tudo sobre sua personagem. Contudo, se você sentir que essa cena contribui para que o leitor entenda a trajetória da sua personagem dentro da história que você está escrevendo, então, ela é importante.

Em resumo, uma cena de luta deve impulsionar a história. Ela deve indicar algum tipo de transição, mesmo que puramente psicológica, seja no enredo ou no arco das personagens.

E aí, autor? O que achou do texto de hoje? Deixe suas opiniões e experiências nos comentários!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *