O guia para escrever histórias surpreendentes

Qual autor não quer surpreender seus leitores? Seja com uma reviravolta imprevisível, com um estilo de escrita único ou com personagens excêntricas e inesquecíveis, queremos deixar uma marca que nossos leitores não esperavam e não esquecerão tão cedo. Mas como escrever histórias surpreendentes assim para autopublicação?

O primeiro passo, e isso pode parecer um pouco óbvio, é publicar ebook de qualidade. Muitas vezes, compramos um livro com uma expectativa mediana. A primeira maneira de surpreender um leitor é superando suas expectativas com a qualidade do livro.

O segundo passo é sair da caixinha e escrever de forma diferente e cheia de personalidade, para que até mesmo as partes narrativas do seu ebook sejam marcantes. O que, é claro, não significa que você deve ser exagerado e encher seu texto de firulas.

O terceiro passo é desenvolver personagens imprevisíveis, que subvertem as expectativas do leitor com suas atitudes. Para isso, pense em como os seres humanos são complexos e contraditórios. Com um bom desenvolvimento, sua personagem pode conter um universo inteiro de possibilidades dentro dela.

O quarto passo é se tornar um expert nas reviravoltas de enredo! E isso não significa priorizar as reviravoltas sobre as vontades do leitor. Uma boa reviravolta é inteligente, faz sentido no enredo e causa sentimentos positivos no leitor, mesmo que misturados a sensações de surpresa e uma leve frustração.

Como botar tudo isso em prática? Vamos ensinar agora, no Guia Para Escrever Histórias Surpreendentes!

1. Como escrever uma história de qualidade

Se você acompanha o blog da Bibliomundi, já deve saber tudo sobre como publicar livros excelentes. Algumas das nossas dicas para quem está começando o primeiro livro ou quer aprender um pouco mais para se tornar um autor melhor:

  •      Pesquise antes de escrever livro. A pesquisa vai tornar a sua história muito mais completa e verossímil, e isso vale para qualquer tipo de ebook. Se você vai escrever uma história que se passa em um lugar ou época onde você não mora, pesquise. Se você vai escrever sobre uma personagem que tem uma vivência diferente da sua, pesquise. Se você vai criar um universo novo, ainda assim, pesquise!
  •       Crie métodos para planejar o enredo do seu livro (ou só deixe rolar, mas com disciplina). O planejamento contribui para um enredo que faz sentido, em que todos os elementos da história têm um motivo para estar ali. Muitas vezes, não planejar o enredo faz com que o autor se perca na história e até mesmo abandone o projeto.
  •       Aprenda como desenvolver personagens. As personagens são a alma de uma história. De certa forma, são elas que se comunicam e criam uma relação com o leitor. Por isso, nada de focar só no enredo e deixar personagens meia boca.
  •      Escreva diálogos realistas. Os diálogos também não podem ficar para trás. Eles são uma das principais formas de expressão das personagens, e é por meio dos diálogos que você transmite ao leitor a identidade e voz únicas de cada personagem. Além, é claro, de ser o momento em que as relações entre personagens se consolidam.
  •       Foque em como cativar os leitores. Saiba quem é seu público e como você deve se comunicar com ele. Você não precisa escrever imaginando cada pessoa do mundo que lerá seu livro e também não é obrigado a escrever histórias visando o apelo comercial. Contudo, é sempre bom pensar em pelo menos uma pessoa que você gostaria que lesse o seu livro. Pode ser um amigo próximo, uma personagem ou até você mesmo, o importante é tentar pensar no seu livro como se fosse escrito por outra pessoa, como seria a reação desse “leitor ideal”.
  •      Reduza seu texto ao necessário. Às vezes, menos é mais. Alguns escritores têm a impressão de que o texto será melhor se estiver cheio de palavras difíceis e descrições muito detalhadas. Pegar leve às vezes faz bem. Corte o desnecessário e o seu texto provavelmente ficará muito mais agradável.

Agora, você já está preparado para escrever um livro cativante. Vamos ao próximo passo: como escrever uma história de forma surpreendente.

2.     Como escrever narrativas surpreendentes

Para escrever uma narrativa surpreendente, o segredo é tentar desconstruir a visão padrão do mundo. Não estamos falando de questões sociais que são discutidas diariamente, mas de algo ainda mais básico e estrutural.

Tente pensar em algo bem comum do seu dia-a-dia. Por exemplo, cachorros. Cachorros são mamíferos domesticados que podem ter uma grande variedade de formas e tamanhos de acordo com a raça. Na verdade, quando você compara determinadas raças, às vezes há bem pouco em comum entre um cachorro e outro.

O guia para escrever historias surpreendentes

São os conceitos enraizados na nossa mente, que nos foram ensinados desde sempre, que permitem que identifiquemos os cães como cães independentemente da raça. Mas e se não tivéssemos esse conhecimento? Como você descreveria os cães?

Um exemplo bobo: na minha família, há uma cadelinha pinscher bem gordinha. Algumas visitas olharam para ela e disseram que ela parece um porco ou um morcego. Em outras palavras, ela é basicamente um “porcocego”.

Trabalhar o lado “porcocego” da narrativa, em vez de focar apenas no lado “cadela pinscher fêmea”, pode ser exatamente o caminho que você precisa para surpreender os leitores a cada parágrafo. (Sem exagerar nas descrições, é claro).

Um excelente exemplo de proeza narrativa fora da caixinha são a série Discworld, assim como outros trabalhos do autor britânico Sir Terry Pratchett.

“-Tenho medo do chão.

– Queres dizer alturas.

(…)

– Eu sei o que quero dizer! O que nos mata é o chão!” – Terry Pratchett

Com muito senso de humor e uma visão única, Terry Pratchett sempre surpreendeu seus leitores com sacadas brilhantes.

3.     Como escrever personagens imprevisíveis

Sem dúvidas, podemos concordar que personagens imprevisíveis têm atitudes surpreendentes.

Como já explicamos no primeiro passo, desenvolver de verdade suas personagens é fundamental para escrever uma boa história. Agora, devemos pensar em como tornar essa personagem ainda mais especial.

Uma boa prática é fazer sua personagem ir além do clichê. Não há nada de errado em criar personagens com base em conceitos e arquétipos, como “mocinho” e “vilão”. Contudo, para escrever uma história surpreendente, suas personagens devem ser muito mais complexas do que esses rótulos.

Faça com que o seu mocinho tenha crenças, motivações, vícios, pontos fracos e fortes. Pergunte a si mesmo: “o que faria essa personagem trair sua missão?” “O que o desviaria do caminho?” “A missão do mocinho é mais importante do que sua moral?”

Pode ser interessante ter um protagonista cujo objetivo é fazer algo bom, como capturar um bandido, mas que é tão obcecado por essa missão que é capaz de ignorar os conceitos de bem e mal e cometer atos condenáveis pela sociedade.

Um antagonista, por sua vez, pode ter um objetivo duvidosos, mas que é justificado de acordo com os preceitos morais da personagem. A princípio, os leitores seriam induzidos a julgar o antagonista por ser o vilão, mas ao conhecer suas motivações, poderiam entender ou até mesmo concordar com ele.

Um embate interessante entre personagens é movido por atitudes e pensamentos que fogem ao óbvio e obrigam tanto o autor, quanto os leitores e, possivelmente, até outros personagens, a repensar sua visão daquele mundo ficcional.

4.     Como escrever reviravoltas no enredo

Por fim, o PLOT TWIST! As reviravoltas no enredo são, sem dúvidas, um dos recursos mais adorados na ficção e que até hoje, quando bem executados, não falham em deixar os leitores boquiabertos.

Uma das primeiras regras para escrever uma boa reviravolta é entender qual tipo de reação você deseja causar nos leitores. Surpresas podem vir de várias formas, e é seu dever guiar o leitor de maneira adequada através da sua história.

Os principais tipos de reviravolta são:

  1.       NADA É COMO IMAGINOU – autor faz o leitor acreditar piamente que o mundo fictício era de determinado jeito para, então, revelar que não era bem assim
  2.      MÚLTIPLAS POSSIBILIDADES – autor deixa diversas possibilidades diferentes e dúvidas a serem respondidas. No final, revela uma verdade que faz sentido, mas que passaria despercebida pela maior parte dos leitores
  3.       O IMPOSSÍVEL POSSÍVEL – o autor cria uma situação praticamente impossível de se reverter e, com uma mudança nos eventos, o “impossível” se torna “possível”

Como você pode observar, existe algo em comum entre todas as reviravoltas: elas envolvem uma quebra nas expectativas do leitor. A diferença é a maneira que o leitor é guiado até essa “revelação” final.

O modelo “a” é, provavelmente, o que causará mais choque entre os leitores. Um exemplo desse tipo de reviravolta é fazer o leitor crer piamente que determinada personagem terá de morrer, para que, no final, quem morra seja outra personagem.

O modelo “b”, por sua vez, causará surpresa e satisfação. Esse modelo é compatível com romances policiais, por exemplo, onde existem vários suspeitos para um crime. A ideia é encher o leitor de dúvidas e, então, o surpreender com uma verdade inesperada.

O modelo “c” ativa a adrenalina e a satisfação. Tipicamente, esse modelo envolve uma personagem enfrentando uma situação que parece impossível de ser resolvida, mas que é solucionada com a própria capacidade da personagem e elementos obscuros do enredo. Por exemplo, uma prova do crime que ninguém havia percebido que existia até então, mas que já havia sido mencionada casualmente.

É preciso tomar cuidado com os clichês e inconsistências nas reviravoltas. Por exemplo, uma péssima maneira de conduzir o exemplo “a” é desenvolvendo todo um enredo complexo, com questões envolventes, para então revelar que tudo não se passava de um sonho.

O primeiro problema dessa reviravolta é que ela é completamente clichê. Tudo bem, ela pode até ser imprevisível para quem lê o livro, mas não muda o fato de que já vimos essa história.

Se você quer que o seu livro surpreenda leitores, então, é preciso pensar um pouco mais, ir além, fora da caixinha. Uma maneira bem prática de alcançar uma boa reviravolta é levantar várias possibilidades. Várias. E ir descartando uma por uma, até achar a mais imprevisível.

O segundo problema é que, além de ser um clichê, essa reviravolta é anticlimática. Quando lemos um bom livro, ocorre a suspensão de descrença. Isto é, enquanto estamos envolvidos naquela história, não pensamos que tudo o que está acontecendo é apenas uma obra de ficção.

A suspensão de descrença nos permite viver a literatura de maneira intensa e cheia de sentimentos reais que depositamos em cada obra. Um final estilo “tudo foi um sonho” desativa a suspensão de descrença e, em geral, apenas frustra os leitores.

Para criar uma reviravolta convincente, é necessário usar foreshadowing, isto é, um recurso literário em que o autor deixa pistas e insinuações do que acontecerá na história.

A graça do foreshadowing é não ser algo fácil de se decifrar, mas que fica guardado na memória para, quando a reviravolta finalmente acontecer, o leitor se lembrar e ver que tudo faz sentido.

Um truque para realizar foreshadowing que não entrega todos os segredos da trama é despejar essas pequenas revelações em cenas intensas, onde o foco do leitor estará em outra questão, outra personagem.

Assim, a informação será jogada no plano de fundo e provavelmente passará despercebida não só pelos leitores, como até por algumas personagens, tornando tudo muito mais interessante.

Outra vantagem do foreshadowing é adicionar mais camadas à sua história, de modo que, após ler o seu livro pela primeira vez, sem saber de nada, o leitor sentirá vontade de ler tudo de novo e entender todas as dicas que você jogou.

Uma história surpreendente é aquela que supera ou subverte as expectativas do leitor. Ela pode causar frustração e choque, mas, no fundo, quando feita da maneira certa e lida pelos leitores adequados, todo o sentimento de ser surpreso e “enganado” será uma delícia.

E você, autor? Já está pronto para surpreender seus leitores com reviravoltas de cair o queixo?

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