Motivos para escrever histórias que se passam no Brasil

Estamos muito acostumados a consumir histórias que se passam fora do Brasil. Nos cinemas, nas plataformas de streaming, na sessão da tarde, nos jogos de videogame, nos livros best-seller.

Se olhamos ao nosso redor, enxergamos o Brasil. Mas se pensarmos em termos de ficção e entretenimento, estamos rodeados pelo estrangeiro. E não é qualquer estrangeiro, veja bem. Existe um domínio cultural dos Estados Unidos e da Inglaterra.

Não se trata de preferir aquilo que é palpável e inteligível. Achamos normal ouvir músicas em inglês, mas já é meio esquisito se for em outro idioma desconhecido. É realmente uma questão daquilo que nos foi “alimentado” desde cedo.

Agora… você já parou para pensar que, para determinado público, todas essas referências estadunidenses mais do que fazem sentido, mas são familiares? Se você assiste uma sitcom nova-iorquina, nada daquilo é familiar, mas existem pessoas que vão ver e pensar “meu deus, é assim mesmo”.

Essas personagens vão andar por ruas que existem, vão comer comidas típicas, visitar restaurantes e redes de fast-food conhecidas, vão comemorar feriados nacionais, vão vivenciar o cotidiano estadunidense. E o público estadunidense vai se reconhecer em tudo isso.

Talvez da mesma forma que quem assistiu A Grande Família já viu uma casa com decoração parecida e se identifica com as falas (e, vamos lá, com as roupas também) de Agostinho Carrara.

Agora, autor independente, voltamos uma pergunta para você: por que você não permite que o seu público vivencie essa mesma familiaridade?

Por que não publicar livro que se passa aqui mesmo, no Brasil?

Calma. Sabemos que nem todo escritor prefere situar suas histórias lá fora. E há também escritores que por questões de gênero literário têm que ambientar seus livros em lugar nenhum do presente. Então, é claro, pode ser que essa pergunta não seja para você.

Contudo, é um fato que existe uma tendência entre autores brasileiros de publicar ebook que se passa lá fora. É um clichê do gênero New Adult ter protagonistas com nomes extravagantes que vivem aventuras sexuais com homens ricos do hemisfério norte.

O apelo dessas narrativas é óbvio. Literatura é, também, escape. Gostamos de fugir da nossa realidade um pouco e viver algo além, algo diferente. E, cá entre nós, o Brasil não está lá essas coisas todas atualmente. Quem não quer fugir daqui às vezes?

O que precisamos lembrar é que a literatura também é a terra das possibilidades. É onde o impossível se torna possível. E especialmente com a autopublicação, você pode escrever de qualquer jeito que quiser.

Você pode retratar a realidade do Brasil nua e crua, denunciando o que há de pior aqui.

Você também pode imaginar um Brasil melhor, um Brasil futurista, um Brasil utopia.

Você pode mostrar brasileiros que estão na luta aqui e agora.

E você pode escrever um Brasil fantástico, sem necessariamente abordar os aspectos aborrecidos da realidade, mas explorando todo um mundo mágico que pode nascer aqui.

Não há nada que você possa escrever num universo ficcional que não possa ser ambientado por aqui. E não precisa nem ser aqui aqui, no sentido literal da coisa. Pode ser um lugar como o Brasil.

A aproximação entre o público e a ficção pode acontecer de várias formas. A começar pelas referências do autor. Se você escrever personagens que tem um jeito como o das pessoas que você conheceu ao longo da sua vida no Brasil, se você descrever cenários como os que você percorreu, se suas personagens se alimentarem com as comidas que você já saboreou… Tudo isso constrói uma identificação.

Pode parecer algo pequeno, mas até os eletrodomésticos que usamos informam uma experiência nacional. No Brasil, a gente lava a louça na mão. A máquina de lavar e o tanque ficam na nossa própria casa, e a roupa a gente estende no varal.

Não temos água quente na torneira, e o chuveiro é elétrico: a combinação assustadora e ousada entre eletricidade e água. Funcionar funciona… mas, às vezes, dá um choque na hora de ligar e, às vezes, queima e até pega fogo. E parece que sempre tem um maldito filete de água fria no meio. Para quem mora em lugar muito quente, o chuveiro não precisa nem esquentar, a água se esquenta sozinha.

Tomamos café desde a infância e tomamos todos os dias. A comida de lei é feijão com arroz, o resto pode variar. E em cada região a gente fala diferente o nome do pão nosso de cada dia: pode ser pão francês, pão de sal e sabe se lá quantas variações mais.

Escrever um livro genuinamente brasileiro não é mais uma questão dos romancistas românticos. Não é mais uma questão de construir uma identidade nacional forçada para um território colonizado em processo de “descolonização”.

Já somos quem somos. Vivemos o que vivemos. Talvez o “saber” quem é o povo brasileiro ainda não seja uma questão tão fácil assim, mas o fato é que nossas experiências são reais e elas são compartilhadas.

Não há uma rua que só tenha sido percorrida por uma pessoa. Não há uma padaria que só tenha um cliente. O que vivemos é maior do que a si próprio.

Então, escreva. Por que guardar tudo isso para si? Fale dessa rua onde você pegava o ônibus para a escola e o parquinho onde brincava depois da aula. Fale, fale, fale. Escreva como se estivesse com seus amigos numa mesa de bar tomando um litrão.

Sem sombra de dúvidas, você vai construir uma conexão que vai além de tudo o que imaginou.

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