Mistério aconchegante: conhecendo o gênero

Como um mistério pode ser aconchegante? Existe um crime, geralmente um assassinato. Até aí, a história poderia ter um clima sério e perturbador. Mas não é esse o ângulo de quem escreve um mistério aconchegante. Em vez disso, a violência fica fora de cena, a linguagem é leve e, muito importante, a personagem principal é gente como a gente.

O gênero cozy mystery, em grande parte popularizado no século passado pela autora best-seller Agatha Christie, é caracterizado por esses elementos:

  • Uma história que se passa em uma pequena comunidade, onde todos se conhecem.
  • Uma protagonista amadora, mas sagaz e intuitiva, que desvenda o crime por conta própria enquanto não é levada a sério pelos profissionais de verdade.
  • Um final feliz, no qual o criminoso é capturado e os inocentes podem seguir em frente sem carregar grandes traumas.
  • E, para completar, uma temática simples, que dá uma característica única para cada história, variando de hobbies, artesanato, culinária e quem sabe até animais de estimação.

O que torna esses mistérios em mistérios aconchegantes é justamente a leveza da narrativa, que faz o possível para não incomodar o leitor. E, assim, tornam-se histórias agradáveis, que podem até mesmo ser lidas antes de dormir.

Os cozies, como também são chamados, são muito populares entre o público feminino. Talvez isso se dê porque as protagonistas dessas histórias também costumam ser mulheres e, mais do que isso, são mulheres comuns, que até então viveriam vidas pacatas.

O “tchan” do mistério aconchegante possivelmente está na identificação, em um universo em que uma mulher comum, talvez até mesmo uma dona de casa, possa de repente se tornar uma heroína ao desvendar um crime que nem os detetives conseguiram.

Encontrando o mistério nas coisas simples

Por isso, para publicar ebook com um bom e aconchegante mistério, o primeiro passo é procurar o mistério na vida cotidiana. O que poderia ser só mais um dia comum, torna-se uma aventura. E as pessoas que você sempre conheceu agora são peças-chave em um crime.

O barbeiro que corta o cabelo dos homens do seu bairro desde que você se entende por gente? O carteiro que todo mundo conhece pelo nome e que sabe onde cada pessoa mora? A professora que trabalha na escolinha há décadas e alfabetizou a comunidade geração após geração? Todos são personagens importantes.

Não se esqueça que um dos fatores fundamentais do mistério aconchegante é o seu cenário, que deve sempre ser uma comunidade pequena. Isso permite que todas as personagens que formam o seu elenco se conheçam e são essas conexões sociais que permitem que a história se desenrole de forma interessante.

Montando um quebra-cabeça para os leitores

Outra característica que torna os mistérios aconchegantes tão divertidos é a estrutura narrativa. Ao acompanhar a protagonista, o narrador expõe para o leitor as pistas em tempo real. E por que isso é importante? Porque permite que o leitor também tente desvendar o mistério.

De certa forma, o mistério-cozy é como uma charada que você pode preencher enquanto toma um café ou espera sua vez de ser atendido no médico. É uma distração e é uma atividade mental. Por isso, não subestime a arte de escrever um cozy mystery. Um bom autor também pensará bastante para construir um bom enredo que entretenha o leitor de forma leve e sagaz.

Para deixar o mistério ainda mais interessante e desafiador, é bom espalhar uma variedade de peças. Algumas podem ser pistas válidas e úteis. Outras estão ali apenas para desviar sua atenção. Não economize em personagens mentirosos e permita que sua protagonista erre às vezes ao se focar nos elementos errados.

Uma técnica interessante pode ser “esconder” uma pista a céu aberto. Isto é, deixar uma peça fundamental do quebra-cabeça exposta, mas em um lugar tão inocente ou tão cheio de informações, que ninguém perceba. Por exemplo, esconder uma carta no meio de uma pilha de correspondência.

Por outro lado, a ausência de um objeto também pode ser uma pista. Por exemplo, se houver uma peça que deveria estar na cena do crime, mas não está. Essa ausência óbvia levará a uma procura por esse elemento, que pode estar escondido em qualquer lugar.

Leve os holofotes para habilidades comuns

Sua protagonista não é nenhuma profissional. Ela não é uma detetive, nem trabalha para a polícia. Por isso mesmo, também não é levada a sério nas suas investigações amadoras. Afinal, o que é que ela poderia saber, não é mesmo?

O que torna sua protagonista especial são as suas habilidades, por mais que comuns, e suas conexões sociais. Ela pode ser viciada em histórias de suspense, como da escola de “detetives” formados em Law & Order. Ela pode ser expert em desvendar quebra-cabeças de jornal. Ela pode até mesmo ser uma excelente cozinheira.

O ponto-chave é que, em algum momento, essas habilidades tão subestimadas devem ajudá-la a desvendar o crime. Por exemplo, se sua personagem souber tudo sobre vinhos, talvez isso a ajude a descobrir que a arma do crime foi um vinho envenenado.

Essas habilidades costumam ter uma grande importância para os mistérios aconchegantes, se tornando uma das temáticas principais de cada livro e o que torna esse gênero tão peculiar.

Ah, não se esqueça das conexões sociais, viu? A sua protagonista pode não ser nenhuma detetive, mas é comum que protagonistas de cozies sejam amigas, filhas ou quem sabe até casadas com detetives, o que as ajuda a conseguir informações.

Além disso, é importante que elas conheçam bem a comunidade e tenham contato com outras pessoas, para que possam conseguir pistas, depoimentos e traçar sua própria lista de suspeitos.

A percepção da personagem em relação à comunidade também pode ser um fator fundamental na hora de construir a narrativa. Por exemplo, fazendo com que ela não desconfie de sua melhor amiga, mas já esteja predisposta a suspeitar de alguém cujo comportamento ela sempre considerou “estranho”.

Que seja leve (e um pouquinho excêntrico)

Por fim, se você quiser publicar livro de mistério aconchegante… você deve escrever de forma aconchegante! Suas personagens devem ser divertidas, queridas, talvez um pouquinho esquisitas, mas fundamentalmente comuns.

As dinâmicas entre as personagens devem ser interessantes, mas fundadas no cotidiano. Esse é o gênero das vizinhas fofoqueiras!

Hobbies e interesses específicos são muito bem-vindos, afinal, eles que dão a temática da história e permitem que sua protagonista desvende o crime de maneira única e mirabolante.

E quer saber? Os mistérios aconchegantes costumam se passar em cenários próximos da realidade. Ainda assim, nada impede de incluir um pouquinho de superstição ou magia. Mas só um pouquinho, viu?

O mais importante é que o foco fique nesses elementos simples e divertidos, e não nos detalhes grotescos do crime. Nada de incluir linguagem chula ou encher o livro de cenas de sexo.

Sim, o crime ainda é uma peça fundamental para o enredo. Então, não é como se a história precisasse ser um dia no jardim da infância. Contudo, os elementos pesados devem ficar fora de cena. Podem ser mencionados, mas não devem ser narrados ou descritos em detalhe.

E essas são as dicas de autopublicação da Bibliomundi hoje!

E aí, autor? Já escreveu algum mistério aconchegante?

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