Iniciando o primeiro livro

Por muitos anos, ou até séculos, era comum considerar a publicação como a maior dificuldade de um autor. Sabemos que, hoje em dia, isso não precisa mais ser um desafio. A maior luta dos autores independentes é contra a página em branco.

Vejamos se você se encaixa neste perfil:

Você decidiu escrever um livro, seja porque sempre sonhou com isso ou porque, de repente, percebeu que era um caminho que deveria percorrer

É possível que você tenha experiência escrevendo pequenos textos, pedaços, devaneios, mas nunca uma obra completa

A sua ideia, mesmo que você tenha pensado muito sobre ela, ainda é vaga, não tem começo, meio e fim definidos

Acima de tudo, você não tem um processo criativo bem definido para conseguir completar seu livro (que você ainda nem começou, para falar a verdade)

E agora, José?

Existem diversas maneiras diferentes de se lidar com essa situação. Cada autor tem um processo criativo individual, que pode ou não funcionar para você.

Nosso objetivo é apresentar dicas práticas e, quando possível, apresentar diferentes caminhos que você pode percorrer. Se você ainda é um escritor aspirante confuso, o ideal é experimentar todas as possibilidades até encontrar o método mais adequado para você e sua rotina.

Então, vamos às dicas:

Seja um bom leitor

Uma dica universal para ser um bom escritor é, primeiro, ser um bom leitor. Não importa qual o gênero ou área de atuação, é sempre importante ler outros autores. Quem estudou literatura na escola já viu, mesmo que brevemente, como existem gêneros literários consolidados em cada época. Grandes autores se inspiram uns nos outros, se comunicam em seus textos.

Não adianta tentar se isolar de outras influências em busca da originalidade. Dificilmente o seu texto será original e, entenda, ele não precisa ser. Shakespeare, o consagrado dramaturgo inglês, raramente escrevia peças autorais. Quase todas as suas obras eram releituras de outras histórias, e foram as suas versões, marcadas pela individualidade do poeta, que conquistaram o público e alcançaram a imortalidade.

A leitura não só o ajudará a se manter atualizado, o que é muito importante em não ficção, como o enriquecerá com cultura. Com ela, é possível explorar a intertextualidade, presente de forma explícita em livros como Dom Casmurro, clássico da literatura brasileira, e entender melhor o gênero que pretende seguir. Afinal, você já sabe se seu livro é de filosofia, ficção científica ou aventura?

Além disso, para um escritor iniciante, que ainda não desenvolveu estilo próprio, se espelhar em escritores já experientes pode ser uma boa técnica. Experimente copiar o estilo de outros autores. Provavelmente verá um resultado muito mais interessante do que se tentasse escrever uma frase crua, sem técnica. A cópia pode ser o pontapé inicial para a construção de um estilo próprio.

Faça um traçado do seu enredo

É bem possível que você já tenha ouvido falar que a ficção se escreve sozinha, que você somente “descobre” a história e muitas ideias que podem ser traduzidas como “deixe o enredo acontecer”. Não que isso esteja errado, mas, especialmente se você é um escritor iniciante, planejar o enredo com antecedência é mais do que útil, é quase essencial.

Eis a verdade: mesmo que você planeje um enredo, a probabilidade dele se mostrar completamente diferente conforme você escreve é muito grande. Você, assim como essas pessoas (e algumas são grandes autores) que ouviu, pode descobrir o seu enredo de forma expontânea.

Mas, sem esse traçado, o que você encontrará são páginas e mais páginas em branco, sem nenhum mapa para ajudar. A verdadeira função do planejamento não é tornar sua história um jogo mecânico onde cada peça tem um encaixe perfeito, mas direcionar você nos momentos difíceis.

Se você já teve aulas de redação, deve ter aprendido que, antes de começar a escrever, é ideal pensar sobre o tema e organizar o conteúdo de cada parágrafo. Seguindo esse método, é possível que, em dias menos inspirados, o escritor siga fielmente o plano. Em outros dias, é possível fugir dos limites pré-estabelecidos e viajar na imaginação. Agora, consegue ver como em ambos os dias existe um resultado?

Com um bom planejamento, você terá o que escrever com ou sem inspiração.

Organize as informações

Muito bem, você já fez um traçado do enredo, mas é preciso um lugar para armazenar todas as ideias e informações do seu livro que não seja a memória. Mesmo que você acredite que nunca esquecerá nada referente às suas histórias, mesmo que um pedaço de papel avulso pareça registro o suficiente, a organização é primordial.

Para a sua sorte, a tecnologia está aí para ajudar a todos, e diversos autores como você também precisam de ajuda com a organização. Existem diversos aplicativos com esse foco. Se você quer guardar anotações, há o Evernote, para listas, Keep, para tarefas, Trello, além de todos os aplicativos feitos só para escritores, como o Escrivener.

Caso você seja a moda antiga, agendas, pastas e arquivos podem ser o suficiente, só cuide para que cada seção esteja em ordem, de forma prática e inteligível. Reserve um espaço para o mapa do enredo, biografias de personagens, pesquisas prontas, ideias de cenas, toda e qualquer informação é válida.

Ter acesso prático a esses detalhes pode ser sua salvação em momentos de bloqueio criativo, dúvidas ou até mesmo quando bater aquela inspiração fora de ordem, para uma cena que você ainda não foi capaz de encaixar na linha do tempo.

Pesquise!

Um bom autor não é apenas um bom leitor, mas também um bom pesquisador. Se o seu livro contém qualquer tipo de informação que não é totalmente pessoal e/ou fictícia, como os pensamentos de um personagem, você deveria fazer um pouco de pesquisa.

Está escrevendo sobre outra cultura? Pesquise. Seu personagem pertence a um grupo social do qual você não faz parte? Pesquise. Sua história se passa em uma cidade ou época em que você nunca viveu? Pesquise. Aliás, mesmo que você já tenha vivido essa época, é melhor pesquisar e não só confiar na memória.

Se o seu livro é de ficção científica, histórico ou não ficção, então a necessidade de pesquisa é maior ainda. No entanto, mesmo que a sua história seja da ficção mais inventiva possível, a literatura sempre exige verossimilhança. Isto é, sua história precisa fazer sentido dentro das regras do mundo em que ela se passa.

O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, se passa em um mundo completamente novo, com línguas criadas pelo autor, e é muito verossímil. Tolkien desenhou mapas complexos e línguas tão bem estruturadas que é possível aprendê-las.

Claro, não estamos sugerindo que você reproduza o trabalho de um dos maiores clássicos da literatura infanto-juvenil. Basta entender que a pesquisa é importante, não importa o gênero. Não seria possível criar um idioma sem estudar noções de linguística, por exemplo.

Estabeleça uma rotina com metas

Pergunte aos autores de sucesso, que já escreveram livros consecutivos. A disciplina é o único caminho para a escrita. É sério, mesmo os autores mais desregrados, como Hemingway, famoso por suas bebedeiras, são escritores disciplinados e com rotina fixa como qualquer outro trabalhador.

Não é a inspiração, nem o talento, nem qualquer conceito fantasioso e ilusório que levará você a concluir seu livro. Separe uma hora fixa para escrever todos os dias, estabeleça metas com base na sua produtividade (seja realista) e no livro que pretende escrever.

Procure exemplos no gênero de sua preferência, mentalize uma quantidade total de palavras para o livro. Agora, divida-o em capítulos. Você pode usar o traçado do seu enredo para auxiliá-lo nisso. Se você pretende escrever um livro de 50000 palavras com 10 capítulos, cada parte terá cerca de 5000 palavras. Dessa forma, você poderá estabelecer uma meta de um capítulo por semana.

Utilize a rotina como um impulso motivacional. Celebre cada meta alcançanda e reorganize seus objetivos com base nos resultados que teve. É improvável que seu livro tenha a quantidade exata de palavras e capítulos estipulada. Isso é apenas uma maneira de organizar seu passo a passo e fazer com que você sempre alcance suas metas.

Com a rotina, você terá resultados. Com metas, você enxergará esses resultados como parte do percurso para um objetivo final, que é a conclusão do livro.

Reescreva tudo

Seu rascunho está pronto! A essa altura, você já percorreu um grande caminho desde a grande página em branco que foi o início do seu livro, mas o trabalho ainda não acabou. O orgulho de ter concluído um livro poderá causar a sensação de que você escreveu uma obra-prima, e esse pensamento pode estar certíssimo, mas… antes, você precisa reescrever e editar.

Sim, reescrever. Doloroso, eu sei, mas não entre em pânico. Reescrever não precisa e não deve ser um processo tão longo e cansativo quanto criar um livro do zero. O seu objetivo aqui não é ser criativo, mas coerente.

Justamente pela escrita de um livro ser um processo longo, o resultado é, muitas vezes, inconsistente. Com certeza, sua técnica evoluiu muito desde a primeira página, e é provável que uma simples edição não dê conta de igualar as diferenças entre o estilo do começo e do fim da obra.

Por isso, você deve aplicar toda a habilidade e experiência adquiridas, além do conhecimento mais aprofundado sobre sua história, incluindo enredo e personagens, para tornar o seu livro uma obra mais consistente, coerente e completa.

Os personagens, apesar de evoluírem ao longo do livro enquanto pessoas, devem se mostrar “redondos” desde o início. Isto é, mesmo que o protagonista seja imaturo no início da história, enquanto personagem, ele já deve se mostrar complexo.

Aproveite esta etapa para procurar furos no enredo. Você não quer que seus leitores façam isso por você, não é mesmo?

Edite e conclua

Após reescrever, você poderá editar. Leia direito. Após reescrever. Tudo bem adiantar o processo um pouco, unir o útil ao agrádavel, essas coisas, mas reescrever é muito semelhante a escrever e, como você bem sabe, a criação não combina com a edição.

Mesmo que o seu livro reescrito pareça concluído e perfeito, não custa nada reler e editar. Se a reescrita cuida da coerência, agora você deixará o seu texto coeso. Nesta etapa, você focará em palavras, verbos. Basicamente, é hora de substituir e eliminar qualquer elemento que deixe o seu texto menos agradável.

O objetivo é fazer com que tudo flua melhor. Por isso, se atente para:

Palavras repetidas

Um livro bem escrito não têm repetições excessivas. Você tem duas alternativas: substituir ou eliminar. Um bom dicionário de sinônimos será o seu melhor amigo agora. Existem algumas ferramentas dedicadas a contagem de palavras, como o WordCounter360º. Com ele, você poderá identificar quais palavras mais aparecem em seu texto e agilizar a edição.

Advérbios preguiçosos

Isso mesmo. Os advérbios não só podem deixar o texto cansativo, com a repetição do som “mente”, como também podem indicar preguiça na hora de escrever. Afinal, os advérbios descrevem como uma ação foi feita. Essa é a sua função enquanto autor, não a passe adiante para os advérbios.

Qual você prefere: “Bastava um breve eco para ela se levantar e, com passos apressados, se dirigir até a porta” ou “Bastava um breve eco para ela se levantar e se dirigir rapidamente até a porta”?

Elementos desnecessários

A objetividade sempre tem lugar na escrita de um bom livro. Como diria o urso Balu, personagem de Mogli – O Menino Lobo (1967), clássico do estúdio Walt Disney Pictures:

Eu uso o necessário

Somente o necessário

O extraordinário é demais

Eu digo o necessário

Somente o necessário

Por isso, na hora da edição, sempre procure palavras, trechos e até mesmo capítulos desnecessários e elimine-os. Eles reduzirão a qualidade e fluência do seu texto e, logo, o interesse de seus leitores. Poucas coisas deixam a leitura tão tortuosa quanto uma passagem irrelevante.

Lembre-se de que estamos falando de elementos dispensáveis, supérfluos, inúteis, inoportunos, descabidos. Nunca leia isso como um ataque pessoal ao seu estilo a não ser que realmente precise de melhorias.

Autores como Virginia Woolf, que usam e abusam do fluxo de consciência, têm textos com parágrafos longos, cheios de devaneios dos personagens, que são absolutamente essenciais para a obra e o estilo. Objetividade não é a característica forte de seus livros, e isso não diminui a qualidade do texto.

É importante reduzir o livro ao máximo, eliminando o supérfluo, mas isso não significa se enquadrar em um padrão universal do que é ou não objetivo. Você, enquanto mestre da própria história, precisa ser rigoroso na edição e, ao mesmo tempo, saber discernir o essencial do descartável.

Críticas construtivas

É uma boa ideia consultar outras pessoas, de preferência escritores, revisores ou leitores ávidos, na hora da edição. Que tal ter um leitor beta? Em resumo, é a primeira pessoa que lerá seu livro. Ela terá a responsabilidade de opinar e editar, tudo de acordo com o que vocês decidirem.

Você também pode contratar um editor ou até mesmo trabalhar junto com outro autor, cada um motivando e criticando (de forma construtiva) o outro. Considere todas as possibilidades e decida o que é melhor para você, mas não deixe de ouvir opiniões alheias. É difícil ter uma visão objetiva do texto que você mesmo escreveu, e isso não é um problema.

Saber ouvir os outros, aceitar as críticas de forma positiva e trabalhar em cima disso faz parte do caminho de um autor de sucesso. Afinal, nem Jesus agradou todo mundo. Depois de conquistar reconhecimento, você deverá se preparar para todo o tipo de comentário.

E aí? Está pronto para começar seu livro? Pare de procrastinar e siga seus sonhos. Estamos esperando a sua publicação aqui mesmo, na Bibliomundi.

1 comentário

  1. Gualberto Sales

    Olá! Boa noite!

    Parabéns pelo artigo. Tem umas dicas super valiosas. A propósito, já publiquei meu livro The Famous ME pela Bibliomundi. Estou adorando a experiência. Estou muito feliz por ter vendido, por exemplo, quatro unidades na Holanda. Tenho muito interesse em saber se meus leitores daquele país gostaram do livro e se pensam em compartilhar entre os amigos. É meu sonho e acho que de todo escritor ver seu livro reconhecido.

    Abraços,

    Responder

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