Escrevendo diálogos: é repetitivo escrever “ele disse”?

Um dos terrores dos autores iniciantes é a repetição de palavras impossíveis de não se repetir. Por exemplo, o nome das personagens, pronomes e verbos obrigatórios como “dizer”. Simplesmente não há como publicar livro sem que esses termos apareçam mais de uma vez no texto.

O que queremos explicar hoje nas dicas de autopublicação da Bibliomundi é: não tem problema. Pode repetir.

“Mas como assim?” Você pergunta. “Não é cansativo para o leitor ver as mesmas palavras de novo e de novo e de novo num mesmo texto?”.

O segredo é que, além de necessárias, algumas palavras se tornam quase invisíveis aos olhos. É justo sua obrigatoriedade no texto que as torna tão comuns que “desaparecem” na leitura.

Por outro lado, se você as elimina ou substitui quando não convém, isso pode atrapalhar a compreensão do leitor ou irritá-lo com o excesso de “floreios”. Às vezes, repetir uma palavra simples é melhor do que usar uma difícil só para variar.

Os diferentes tipos de verbos

Para publicar ebook com uma narrativa bem estruturada, é recomendável se atentar a certas questões mais técnicas da linguagem. Por exemplo, saber identificar os tipos de verbos que podem ser usados para marcar um diálogo.

Existem verbos de elocução, que podem ser divididos nas categorias dicendi e sentiendi, e verbos de ação.

Como o próprio nome sugere, os verbos de elocução são aqueles que indicam uma fala. Os verbos dicendi explicam o ato oral realizado de forma direta e objetiva: dizer, perguntar, responder, concordar. Já os verbos sentiendi o fazem ao mesmo tempo que exprimem emoções (ex.: lamentar, gemer, gaguejar, rir).

Os verbos de ação, também autoexplicativos, descrevem a ação que a personagem realizou sem fazer referência direta à fala em si. Por exemplo: levantar, gesticular, andar, pegar. Uma frase sem verbos de elocução pode ser considerada um trecho narrativo comum.

Cada tipo de verbo tem uma função específica na narrativa, sendo igualmente importantes. Nenhum é superior ao outro. O que vale é analisar qual é mais adequado para cada frase.

A função mais comum de assinalar o diálogo com verbos dicendi é simplesmente demarcar quem falou o quê. Como explicamos anteriormente, um “ele disse” é quase imperceptível aos olhos do leitor, mas tem a função crucial de guiá-lo para que não se perca no diálogo.

Um texto com muitas falas e poucas marcações de diálogo é um texto confuso. Contudo, às vezes fica implícito qual personagem está falando no momento. Por exemplo:

– Falando nele… – Eu disse.

– Você já ligou para ele? – Maria parecia apreensiva.

– Eu vou ligar hoje à noite.

Em um diálogo entre duas pessoas, tipicamente suas falas serão intercaladas a cada parágrafo. Dessa forma, se o leitor já sabe que quem falou primeiro foi A, logicamente quem responderá será B. No entanto, em um diálogo longo, é bom relembrar ao leitor a ordem dos interlocutores de tempos em tempos.

O conteúdo da fala também pode indicar quem é o interlocutor no momento através do contexto. Vamos supor que tivessem mais pessoas presentes nessa conversa, sendo eles Maria, Lucas e o narrador-protagonista, Jorge:

– Falando nele… – Eu disse.

– Tá tudo bem entre vocês, gente? –  perguntou Lucas.

–  Ainda não sabemos. Você já ligou para ele, Jorge? – Maria parecia apreensiva.

– Eu vou ligar hoje à noite.

Como Maria direcionou a pergunta especificamente para Jorge, e a fala seguinte é a resposta a essa pergunta, fica implícito que foi Jorge que a respondeu. Portanto, não é necessário marcar quem foi o interlocutor nesse momento específico.

É interessante observar também que em ambos os exemplos usados anteriormente, as falas de Maria não foram seguidas de verbos de elocução. A fala foi seguido por um trecho narrativo comum, na qual o nome de Maria é o primeiro a ser citado, o que indica implicitamente que a fala foi dita por ela.

Indicando o tom de voz com verbos

Enquanto os verbos dicendi são simples e diretos, apenas diferenciando as falas entre afirmações, perguntas e afins, os verbos sentiendi e de ação podem trazer outras nuances ao texto.

Nem sempre é necessário trazer essas nuances, é bom lembrar. Às vezes a fala basta em si mesma e a marcação do diálogo deve ser feita de forma simples, apenas para lembrar ao leitor quem está falando no momento.

Contudo, quando o autor deseja exprimir as emoções da personagem, pode ser bem mais interessante usar verbos sentiendi ou de ação do que, talvez, seguir o verbo dicendi de um advérbio.

Aqui, entra a técnica do show, not tell (“mostre, não fale”). Ao descrever a ação de uma personagem, você pode transmitir seus sentimentos de forma muito mais vívida do que se apenas dissesse “ele disse tristemente”, por exemplo.

Pensando também na economia de palavras, se você sentiu a necessidade de associar o verbo dicendi a um advérbio, pode ser muito mais interessante usar apenas um verbo sentiendi que consegue transmitir esse significado completo em uma palavra só. Por exemplo, substituindo “disse tristemente” por “lamentou”.

Um texto não deve ser rígido. Você não precisa descrever toda fala com um verbo de ação, nem deve sempre usar verbos de elocução para a economia máxima. O que torna o seu texto belo e fluente é a sua capacidade de intercalar os diferentes tipos de verbo conforme a necessidade:

  • Use verbos dicendi quando a fala basta em si mesma e tudo o que você precisa é indicar ao leitor quem é o interlocutor.
  • Use verbos sentiendi quando você precisa expressar de forma concisa o tom, as emoções e/ou o estado psicológico da personagem.
  • Use verbos de ação para demonstrar de forma visual o tom, emoções e/ou estado psicológico da personagem e também para ancorar o diálogo na cena em si.

Vale ressaltar também que, da mesma forma que repetir verbos como “dizer” não é cansativo aos olhos, não há problema em repetir o nome de uma personagem e muito menos pronomes como “ele” e “ela. Permitir que o leitor compreenda o texto é uma prioridade e, muitas vezes, a opção menos intrusiva e confusa é a mais comum.

Inventar diferentes formas de se referir a uma personagem (referindo-se a ela por uma característica física, por exemplo), assim como substituir verbos dicendi por verbos sentiendi quando não há necessidade de exprimir o tom da fala, apenas torna o texto mais cansativo e, por vezes, brega.

Menos é mais: aprenda a reduzir seu texto ao necessário. Não há problemas em usar uma linguagem mais simples e direta. Saiba identificar o que o seu texto precisa e elimine todo o sobressalente.

E aí, autor? Qual a sua opinião sobre as marcações de diálogo?

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