Descubra como escrever um conto ou poema fascinante com Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe é, sem dúvidas, um dos maiores nomes da literatura americana. Com seus poemas e contos macabros, Allan Poe dedicou sua vida profissional exclusivamente à literatura e foi pioneiro de diversas formas.

O sucesso de Allan Poe não veio à toa. Não era um simples vislumbre de inspiração que terminava em contos e poemas inesquecíveis. Não. A chave para a escrita habilidosa de Edgar Allan Poe estava em seu método, e sabe o que é melhor? Ele estava disposto a compartilhá-lo.

No ensaio “A Filosofia da Composição”, Allan Poe explica passo a passo “os processos pelos quais qualquer uma de suas composições atingia seu ponto de acabamento”. E, hoje, vamos ensinar como escrever um conto ou poema fascinante utilizando os passos de Edgar Allan Poe.

1.     Saiba o final desde o começo

Nada é mais claro do que deverem todas as intrigas, dignas desse nome, ser elaboradas em relação ao epílogo, antes que se tente qualquer coisa com a pena. Só tendo o epílogo constantemente em vista, poderemos dar a um enredo seu aspecto indispensável de conseqüência, ou causalidade, fazendo com que os incidentes e, especialmente, o tom da obra tendam para o desenvolvimento de sua intenção.

Em outras palavras, antes de mais nada, a primeiríssima parte de seu conto que você deve elaborar é o fim. A partir daí, você deve planejar o enredo e todas as suas questões levando esse evento em consideração.

O resultado é o “aspecto indispensável de consequência ou causalidade”. Você terá uma obra bem trabalhada, com desenvolvimento intenso, e será capaz de explorar suas intenções iniciais.

2.     A leitura deve ser feita de uma vez só

A literatura deve ser imersiva. Quando estamos lidando com gêneros textuais onde a brevidade é mais do que possível, é uma regra. Escrever uma obra que não pode ser lida inteira de uma vez só é quebrar a imersão do leitor.

Se alguma obra literária é longa demais para ser lida de uma assentada, devemos resignar-nos a dispensar o efeito imensamente importante que se deriva da unidade de impressão, pois, se se requerem duas assentadas, os negócios do mundo interferem e tudo o que se pareça com totalidade é imediatamente destruído.

É o que Allan Poe chama de “unidade da impressão”.  O conjunto de sentimentos e reflexões que um leitor pode sentir ao ter contato com uma obra ao lê-la integralmente em uma só tentativa.

Quando se trata da autopublicação de ebooks, esse fator se torna ainda mais importante, pois a leitura digital tende a ser mais curta. Então, se você quer publicar ebook, seguir esse conselho é uma ótima ideia.

3.     A escolha de impressão

O próximo passo é escolher qual impressão ou efeito você deseja causar no leitor. No caso de Allan Poe, ele tinha “firmemente em vista o desejo de tornar a obra apreciável por todos” e, dito isso, afirmou que “a Beleza é a única província legítima do poema”. Beleza essa, que não é uma qualidade, e sim um efeito associado à pura e intensa elevação da alma.

Quando o assunto é prosa, Allan Poe propõe outros objetivos:

Quanto ao objetivo Verdade, ou a satisfação do intelecto, e ao objetivo Paixão, ou a excitação do coração, são eles muito mais prontamente atingíveis na prosa, embora também, até certa extensão, na poesia.

4.     Determine o tom da sua obra

Tendo o efeito desejado em mente, é hora de escolher o tom, de forma que um se comunique com o outro. A escolha de Allan Poe pode ser lida a seguir:

Encarando, então, a Beleza como a minha província, minha seguinte questão se referia ao tom de sua mais alta manifestação, e todas as experiências têm demonstrado que esse tom é o da tristeza. A beleza de qualquer espécie, em seu desenvolvimento supremo, invariavelmente provoca na alma sensitiva as lágrimas. A melancolia é, assim, o mais legítimo de todos os tons poéticos.

Independentemente do tom que você escolha (não, não devemos todos escrever com melancolia), outra dica que Allan Poe nos dá para compor uma obra fascinante é o uso do refrão “a fim de obter algum efeito artístico agudo que me pudesse servir de nota-chave na construção do poema, algum eixo sobre o qual toda a estrutura devesse girar.”

Em geral, os refrões são repetitivos. Eles usam o mesmo tom, palavras e ideias sucessivamente. Edgar Allan Poe resolveu “aperfeiçoar” o refrão “aderindo em geral à monotonia do som, porém continuamente variando na da idéia” e assim, produzindo novos efeitos.

5.     Escolha tema e caracterização

Para trabalhar temas abstratos, muitas vezes o melhor caminho é encontrar elementos concretos que exprimem as ideias desejadas. Lembre-se do seu objetivo e tom ao escolher um tema e a forma para caracterizá-lo.

De todos os temas melancólicos, qual, segundo a compreensão universal da humanidade, é o mais melancólico?” A Morte – foi a resposta evidente. “E quando”, insisti, “esse mais melancólico dos temas se torna o mais poético?” (…) a resposta também aí era evidente: “Quando ele se alia, mais de perto, à Beleza; a morte, pois, de uma bela mulher é, inquestionavelmente, o tema mais poético do mundo e, igualmente, a boca mais capaz de desenvolver tal tema é a de um amante despojado de seu amor

Recapitulando, para escolher a impressão desejada, Allan Poe quis criar uma obra com impacto universal e, para isso, escolheu a “beleza” como o ponto central. Em seguida, precisava de um tom que melhor exprimisse a beleza, e encontrou a “tristeza”, a “melancolia”.

Com essas informações em mãos, ele buscou determinar o tema universal da tristeza, e encontrou a “morte”. Para caracterizar esse tema, optou pelas personagens de uma bela mulher falecida, unindo, então, a “beleza” e a “morte”, e o homem desolado que perdeu a mulher que amava, expressando em palavras a “tristeza”.

6.     Estabeleça o clímax

O clímax é um elemento essencial para escrever um conto ou poema fascinante. Sob a perspectiva de Allan Poe, para construir esse clímax, os elementos da narrativa devem se desenrolar no final da narrativa. Elementos esse, que foram posicionados tendo em mente o grande final.

Em O Corvo, o seu mais conhecido poema, esse clímax se encontra no final. Há uma repetição do refrão “Nunca mais!” proferido pelo corvo em resposta aos questionamentos lamuriosos do eu lírico, que perdeu seu amor, ao longo do poema.

Contudo, há uma escala dramática nas falas do eu lírico, levando ao grande clímax:

“Profeta!” – exclamo. “Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!

Pelo alto céu, por esse Deus, que adoram todos os mortais,

fala se esta alma, sob o guante atroz da dor, no Éden distante

verá a deusa fulgurante a quem, nos céus, chamam Lenora

– essa, mais bela do que a aurora, a quem, nos céus, chamam [Lenora!”

E o Corvo disse: “Nunca mais!”.

7.     Determine o local

Todos os elementos na mesa, segundo Allan Poe, esta é finalmente a hora de definir o local em que se passa sua história. Para muitos autores, pode parecer estranho deixar a escolha de cenário por último. Afinal, em muitas histórias ele é um fator determinante.

Contudo, sob o ponto de vista de Edgar Allan Poe, ao deixar o cenário por último, a obra em si definirá qual o melhor ambiente para a história, assim como detalhes mais externos da caracterização das personagens.

Em outras palavras, o local é nada mais, nada menos do que outro elemento que contribui para a construção da história ideal, cujo processo criativo deve começar com o final e uma escolha de impressão.

E aí, autor? O que acha da metodologia de Edgar Allan Poe para escrever poemas e contos atemporais? Deixe o seu comentário!

1 comentário

  1. AdrianaSilva Santiago

    Estou adorando as dicas do bibliomundi. Já tenho um livro publicado (Mar Revolto – Poesias e Crônicas, Ed.Scortecci, 2017,108 p.). Sobre poesias e crônicas, percebi que fiz direitinho! Que bom! Agora comecei a estudar para escrever meu primeiro romance. Estou adorando as dicas! Obrigada!

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