Como se inspirar em clássicos para criar novas histórias

Às vezes, a inspiração para uma nova história vem de outra história. De preferência, que seja uma história mais antiga, mais famosa. Uma história reconhecível para os leitores e que seja de domínio público, para não ter problemas. Com apenas uma referência, você pode criar algo que seja totalmente seu e publicar livro quando quiser.

Um dos exemplos mais famosos que podemos pensar é O Rei Leão (1994). Com uma boa análise do enredo, é possível perceber diversas semelhanças entre o filme da Disney e a peça trágica de Shakespeare, Hamlet. E como foi possível transformar uma tragédia tão adulta em uma história para crianças? Bem, adaptando.

Não é como se O Rei Leão fosse exatamente igual a Hamlet. Mas podemos observar que ambas as histórias contam com um princípe cujo pai foi assassinado pelo seu tio, que desejava tomar seu lugar no trono. Em ambas as histórias, o príncipe passa um tempo afastado de seu reino e depois volta, encontra o fantasma de seu pai e, por fim, se vinga por ele.

As diferenças estão em… bom, obviamente em como uma história é sobre humanos e outra sobre leões. E também na escala da tragédia. Digamos que o final de Hamlet não seja assim tão feliz quanto o de O Rei Leão. Ah, Timão e Pumba também são bem mais simpáticos do que os amigos que Hamlet fez quando estava longe de casa. Não vamos nem entrar em como a relação de Nala e Simba é muito mais saudável do que a de Hamlet com a pobre Ofélia.

O que a Disney fez (pelo menos de acordo com todo mundo que conhece tanto O Rei Leão quanto Hamlet) foi se inspirar nos pontos centrais do enredo para criar uma nova história, com um novo cenário, personagens diferentes e um tom inteiramente distinto.

Quer mais um exemplo? Todo mundo que nasceu nos anos 90 cresceu assistindo Um Maluco No Pedaço, uma série de comédia sobre um adolescente negro e pobre que se mudou para a casa dos seus tios ricos após se meter em uma briga na sua cidade natal.

Recentemente, um cineasta lançou no Youtube um “trailer” do que seria Um Maluco No Pedaço caso se passasse nos dias atuais. Chama-se Bel Air e, por incrível que pareça, é um drama. O trailer fez tanto sucesso que o projeto conseguiu um contrato para a produção de duas temporadas.

Enquanto a série original interpreta a história do protagonista Will Smith sob a lente da comédia, exagerando comicamente as diferenças entre Will e seus parentes ricos, a nova série leva em consideração o clima político e tensões raciais dos Estados Unidos na década atual. Apenas mudando o gênero, a história se tornou outra, por completo.

E a originalidade, onde fica?

Escrever um livro original sem se inspirar nem um pouquinho em qualquer história é, a bem da verdade, um sonho inalcançável. Isso não significa, no entanto, que você seja incapaz de escrever uma história incrível, irreverente, com um gostinho único que é todo seu.

A questão é que, quando tentamos pensar no que é “original”, quase sempre se procurarmos um pouco mais encontraremos uma referência anterior. A arte é feita como uma série de respostas, o mesmo vale para a literatura.

Podemos observar isso com a Jornada do Herói, o monomito, uma estrutura que se repete em narrativas de todo o mundo, de Jesus Cristo a Buddha, e que está presente em histórias até os dias de hoje. Essa estrutura é organizada em:

  1. O mundo comum
  2. O chamado da aventura
  3. Recusa do chamado
  4. Encontro com o mentor
  5. Cruzamento do primeiro portal
  6. Provações, aliados e inimigos
  7. Aproximação
  8. Provação difícil ou traumática
  9. Recompensa
  10. O caminho de volta
  11. Ressurreição do herói
  12. Regresso com o elixir

O monomito foi usado como referência na criação de Star Wars, na trilogia Matrix e diversos filmes da Disney, como Mulan (1998) e Moana (2016). Agora, diga: só porque todas essas histórias usam a mesma estrutura, será que elas são iguais?

Em resumo, a “originalidade” de uma história está muito mais nos detalhes de como ela é apresentada ao leitor do que em uma recusa em se inspirar em histórias que vieram antes. E vamos ainda mais longe, é uma boa ideia fazer as pazes com os clichês. Para saber mais, leia o artigo Como usar tropes na escrita.

Dicas para escrever histórias inspiradas em clássicos

Bom, você já entendeu que se inspirar em clássicos para criar novas histórias pode ser uma ótima ideia. Agora, vamos às dicas para você publicar ebook inspirado em um clássico sem errar na dose.

1.      Dê preferência para histórias de domínio público

Antes de mais nada, você deve tomar certas precauções para evitar acusações de plágio. Se a sua história se inspira em outra, certifique-se de que essa história não pode ser categorizada como uma cópia. Uma das maneiras mais seguras de se fazer isso é buscando histórias de domínio público, como contos de fadas.

2.      Identifique os principais elementos da história

Em todos os exemplos que citamos, existe algo em comum: eles respeitam elementos estruturais das histórias nas quais se inspiram. Se você deseja fazer referência a outra história, é interessante que existam marcas que a identifiquem aos olhos do leitor.

3.      Faça mudanças drásticas, deixe sua marca

Contudo, manter alguns elementos estruturais não significa que você deve deixar tudo igual. Para poder chamar essa história de sua, você deve mudar algo significativo e deixar sua marca ali. Faça mudanças no gênero, no cenário, na personalidade das personagens, nas suas motivações. Torne a história mais leve ou mais pesada. Mude o começo ou o fim.

4.      Aprofunde os elementos que interessam a você

Para deixar a sua marca, você precisa pensar no que é interessante para você nessa história. O que você sempre quis ver acontecer de forma diferente? Ou quem sabe você tenha curiosidade sobre o passado das personagens? Será que o “felizes para sempre” foi para sempre mesmo? Encontre os elementos que mais interessam a você que já existem na obra original e pense também nos elementos que o agradam em uma obra de ficção e que você gostaria de incluir na sua versão.

5.      Que tal abordar outro ponto de vista?

Por fim, uma ótima forma de adaptar histórias é simplesmente mudando o ponto de vista. E se a personagem principal fosse outra? Que tal contar a história do ponto de vista do vilão? Ou dos pais do protagonista? Ou do interesse amoroso? Se tem uma personagem que desperta sua curiosidade, tente imaginar como seria essa mesma história se fosse contada por ela.

E aí, autor? Já pensou em como você poderia dar uma cara nova para uma história antiga? Comente aqui!

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