Como NÃO escrever triângulos amorosos

Os triângulos amorosos são um dos grandes clichês da ficção e não apenas em livros de romance. Seja uma história de aventura, ficção histórica, fantasia ou às vezes até terror, o triângulo amoroso dá um jeito de se esgueirar pelos caminhos e se instaurar na vida dos protagonistas. Há leitores que não aguentam mais o uso desse trope na escrita.

Não é que você não deva jamais publicar livro com um triângulo amoroso. Sabemos que essas formações geométricas podem render excelentes tramas. A questão é pensar: você deve mesmo inserir um triângulo amoroso nesta história? E, se sim, como desenvolver esse triângulo de um jeito que não faça seus leitores desejarem rasgar seu livro ao meio?

Esses são os primeiros passos para não errar na hora de criar uma trama romântica para a sua história.

Nas dicas de autopublicação de hoje, vamos ensinar tudo o que você precisa saber para publicar ebook com triângulo amoroso sem errar na mão.

O que é um triângulo amoroso?

Pode parecer uma resposta um pouco óbvia, mas é interessante delimitar exatamente o que é um triângulo amoroso antes de propor maneiras de escrevê-lo. Em resumo, refere-se a uma situação em que há interesse amoroso envolvendo três pessoas ao mesmo tempo. A dinâmica dessa relação pode variar imensamente, no entanto.

Um triângulo amoroso pode envolver uma pessoa A que é apaixonada por B e C ao mesmo tempo. Pode envolver pessoas B e C, ambas apaixonadas por A, sendo que A, a princípio, não demonstra interesse em nenhuma delas. Pode ser uma situação em que A é apaixonada por B, que é apaixonada por C, que é apaixonada por A. Pode até mesmo ser uma situação em que A, B e C estão todas apaixonadas entre si. Ou seja, não há apenas uma forma de se “organizar” o triângulo.

Uma das características marcantes dos triângulos amorosos na ficção é o conflito. Em geral, a existência do triângulo amoroso indica que pelo menos uma das personagens precisa tomar uma decisão a respeito, para que o conflito acabe.

O exemplo mais clássico são as histórias de amor nas quais a protagonista tem dois interesses amorosos e precisa escolher com qual deles ficará no final. Tipicamente, essas personagens apresentam qualidades diferentes. Por exemplo, a humanidade vs. o sobrenatural. A estabilidade vs. a aventura.

Os triângulos amorosos podem ser bem mais complicados do que isso, no entanto. Nem sempre é só uma questão de escolher quem é a melhor opção para começar uma relação. O triângulo amoroso pode nascer enquanto as pessoas A e B já estão num relacionamento, por exemplo, e a pessoa C entra em cena. Neste caso, a personagem A pode ter que decidir entre rejeitar C e continuar com B, largar B para ficar com C, trair B com C, entre outras infinitas possibilidades.

As dinâmicas interpessoais dos triângulos amorosos

O que pode tornar um triângulo amoroso interessante para o leitor é a maneira que ele expõe a complexidade das relações humanas. O tipo de sentimento que cada personagem nutre uma pela outra não precisa ser exatamente igual. Um triângulo amoroso bem escrito não é uma escolha entre seis ou meia dúzia.

Falamos bastante sobre as possíveis configurações dos triângulos amorosos da perspectiva do romance, mas e para além disso? Que tipos de sentimentos podem existir entre pessoas fora atração romântica e/ou sexual? Pessoas podem admirar ou desprezar umas às outras. Elas podem nutrir sentimentos de lealdade ou de dívida. Elas podem sentir carinho, elas podem sentir raiva.

É importante estabelecer uma dinâmica complexa não só entre protagonista e possíveis interesses amorosos, mas também entre os interesses amorosos entre si. Essas personagens são rivais para além do romance? O que elas pensam uma da outra enquanto seres humanos (e não enquanto rivais no amor)? Será que essas personagens podem ser amigas? Essas personagens sequer sabem da existência uma da outra ou do fato que fazem parte de um triângulo amoroso?

Em Laços de Família, a clássica novela da Rede Globo, observamos o triângulo amoroso entre a mãe Helena (Vera Fischer), sua filha Camila (Carolina Dieckmann) e o interesse amoroso de ambas: Edu (Reynaldo Gianecchini). Como o próprio nome da novela sugere, a relação mais importante e que prevaleceu mesmo em um cenário tão polêmico e conturbado foi entre mãe e filha.

Embora a filha Camila tenha “roubado” o namorado da mãe, nada foi capaz de abalar o amor incondicional que Helena nutria pela filha, apoiando Camila integralmente quando ela foi diagnosticada com leucemia.

É relevante lembrar-se também que um triângulo amoroso nem sempre envolve uma simples escolha. Que escolha existe, de fato, quando nenhum dos sentimentos é recíproco? No cenário “A -> B -> C”, A pode implorar para que B esqueça C e a dê uma chance, mas isso nem sempre será possível. Explorar o impacto dessas dinâmicas em cada personagem tem seu valor.

Como escrever triângulos amorosos envolventes?

Falamos muito sobre a confusão completa que podem ser os triângulos amorosos e agora sua cabeça está cheia de possibilidades. Mas como trabalhar isso de forma que faça sentido para a sua história e envolva o leitor na leitura?

1.      Apenas escreva um triângulo amoroso se fizer sentido para as personagens

Antes de mais nada, você deve avaliar se a sua história realmente precisa de um triângulo amoroso e se esse triângulo realmente faz sentido para as personagens. Não existe nenhuma regra que diga que toda história precisa de um triângulo, mesmo as de romance.

Se você incluir um triângulo amoroso na sua história apenas porque sim, é bem provável que ele seja um elemento descartável no enredo, que apenas incomodará o leitor.

Reflita sobre a importância individual de cada personagem, o que cada uma adiciona à história. Analise as interações entre as personagens, qual tipo de reação seria natural, se realmente faz sentido que elas se apaixonem. Pense.

2.      Delimite a importância do triângulo amoroso para o enredo

Okay, você decidiu seguir com o triângulo amoroso. Ainda assim, é importante pensar no papel que ele terá na sua história. Isso diz respeito a questões como o gênero literário, por exemplo.

Em um livro de romance, é natural que o triângulo amoroso se torne uma das principais tramas, ainda que não a única. Já se o enredo do seu livro se foca em outras questões, como um assasinato não resolvido, o triângulo amoroso pode acontecer no plano de fundo.

É possível também que as personagens envolvidas no triângulo amoroso não sejam as protagonistas da história. Neste caso, o esperado é que o triângulo também ocupe menos espaço na história.

3.      Desenvolva todas as personagens individualmente

A melhor maneira de garantir que os leitores se importem com uma personagem é desenvolvê-la adequadamente. Dê a ela características únicas, motivações, objetivos, um arco pessoal com começo, meio e fim.

Para que um triângulo amoroso seja balanceado, todas as personagens envolvidas devem ter espaço para seu desenvolvimento individual e cada uma deve ser diferente das outras. Se você negligencia uma das personagens, é esperado que os leitores não se importem com ela e, virtualmente, ela será apenas um enfeite que sequer deveria estar ali.

4.      Explore as dinâmicas entre as personagens

Quando você cria personagens únicos, com características e objetivos individuais, é natural que suas relações interpessoais também sejam complexas. Mostre o que cada personagem traz para o jogo. Explore o quão diferente personagem A se sente com personagem B e personagem C, por exemplo. Dê um gosto particular para cada combinação de personagens.

E, como mencionamos anteriormente, a dinâmica entre as demais personagens também importa. Às vezes, até as personagens que estão fora do triângulo amoroso podem ter um impacto nessa fórmula.

Vamos supor que a protagonista da sua história tenha uma filha e que um dos interesses amorosos é alguém que a ajudou muito na criação da menina. O laço entre essas personagens também pode influenciar na decisão final da protagonista.

Da mesma forma, se as personagens B e C, ambas apaixonadas por A, também têm uma relação muito forte entre si, é normal que isso gere conflitos internos. Por exemplo: o que é mais importante entre amor e amizade? Como essa disputa no amor pode impactar a relação entre as personagens B e C? Entre outras possibilidades.

5.      Mostre como a tomada de decisão pode impactar a vida das personagens

Muitas vezes, na ficção, o triângulo amoroso representa uma escolha entre dois mundos. Pode ser a decisão entre a estabilidade e a felicidade, ou entre a liberdade e a segurança. É fundamental que as escolhas das personagens digam mais sobre elas mesmas e seus arcos pessoais do que sobre as outras personagens envolvidas.

Às vezes, em um triângulo amoroso, a personagem principal pode escolher ficar com alguém que não ama. Essa decisão deve fazer sentido na trama, a personagem escolhida apresentando outros benefícios para a protagonista ou, quem sabe, uma saída para evitar um final ainda pior.

O que torna o conflito do triângulo amoroso interessante é o que está em jogo por trás dele. Ao escolher entre A e B, ou escolher os dois, ou escolher nenhum dos dois, cada opção terá uma repercussão diferente. Ao escolher um caminho, a personagem deve abrir mão do outro. Pode ser o fim de uma amizade, pode ser o fim da sua humanidade, pode ser o fim da sua liberdade ou, quem sabe, uma quebra com os paradigmas da sociedade.

6.      Essa solução é um clichê?

Ainda pensando nas decisões inerentes à existência de um triângulo amoroso, há mais algo a se pensar: será que você escolheu um caminho óbvio demais?

Há uma série de padrões comuns em triângulos amorosos. A personagem pode escolher ficar com um deles. A personagem pode ser privada da sua decisão porque um deles morreu. A personagem pode desistir de todos. Nenhum desses caminhos é inerentemente clichê ou errado.

Mas, se a sua história teve uma progressão específica e terminou de um modo específico, pode ser que ela seja exatamente igual a tantas outras histórias que você mesmo já leu.

E se for possível um final diferente? Pense fora da caixinha, considere possibilidades que façam sentido dentro da sua história.

Por exemplo, há cada vez mais leitores insatisfeitos com triângulos amorosos nos quais a personagem se sente obrigada a escolher apenas um entre seus interesses amorosos. E se essas personagens decidissem optar por um relacionamento poliamoroso?

É óbvio que essa opção não funciona em todos os casos. Às vezes, há mágoas demais envolvidas no meio. Contudo, em histórias em que três personagens se adoram entre si… por que é necessária a escolha? Isso pode, inclusive, atrapalhar a dinâmica das personagens e fazer com que o livro perca um pouco a graça.

Começar um relacionamento poliamoroso não é uma decisão simples. Há de se admitir que muitas pessoas nem considerariam essa possibilidade e, por isso, pode não fazer sentido para o autor que as personagens a considerem também.

Ainda assim, é uma decisão válida e não livre de seus conflitos. Personagem A pode não abrir mão nem de B, nem de C, mas se as três vivem em uma sociedade conservadora, a própria repressão social é uma possível consequência que pode pesar na decisão final.

7.      Não enrole demais, não crie drama desnecessário

Por fim, o conselho mais curto e talvez um dos mais importantes: não crie drama desnecessário! E não enrole demais!

No bom português popular: não procure pelo em ovo. Se está tudo bem entre as personagens, tudo pode continuar bem. Conflitos devem fazer sentido na narrativa, eles devem ter uma origem sólida e devem ser bem desenvolvidos. Jamais inclua drama só porque sim.

E, da mesma forma, se você complica as vidas das personagens e fazem com que elas fiquem no vai e volta sem nunca chegar a lugar algum, isso vai apenas irritar seus leitores. Ninguém quer lidar com o relacionamento enrolado dos outros, nem na ficção, nem na vida real. Evite.

E aí, autor? O que você acha de triângulos amorosos na ficção? Ama ou odeia? Compartilhe conosco a sua experiência!

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