Como escrever uma história verossímil

A palavra da vez é a verossimilhança. Não dá para escrever um blog com dicas de autopublicação sem tocar nesse assunto. A verossimilhança é fundamental para a ficção porque se trata da habilidade de criar uma história que não é real, que não funciona exatamente igual à realidade, mas que ainda é capaz de convencer o leitor.

Ao publicar livro com uma história verossímil, o seu leitor se torna mais disposto a praticar a suspensão de descrença. Ou seja, mesmo sabendo que aquela é uma história puramente ficcional, que não aconteceu de verdade, com personagens inventadas, o leitor ainda está disposto a sentir empatia pelas personagens e se emocionar com os eventos da história.

No momento da leitura, quando o leitor está imerso na história… tudo aquilo é real. Mesmo sabendo que não é real, se permite sentir como se fosse. Dessa forma, é possível chegar à catarse.

O oposto acontece quando a história não é verossímil. No meio da leitura, o leitor pensa “nossa, mas que palhaçada”, “que forçado”, “isso jamais aconteceria” e, de alguma forma, esse pensamento desconecta ele da história. Faz com que as cenas sejam menos emocionantes, distancia ele das personagens.

A história em si não o deixa mais feliz ou triste. A leitura não flui mais. Tudo isso porque com a falta de verossimilhança, o autor quebrou a suspensão de descrença do leitor.

Toda história precisa ser verossímil?

Mesmo em uma história de fantasia, a verossimilhança é necessária. O mundo ficcional não precisa seguir as mesmas regras do nosso mundo, mas ainda precisa ser convincente.

Se você estabelece um universo ficcional onde existe magia, a existência de magia por si só não é o que quebraria a suspensão de descrença do leitor. Afinal, quando ele aceitou ler uma história fantástica, ele aceitou que essa história poderia ter magia.

O que realmente quebra a suspensão de descrença é a falta de consistência e equilíbrio.

Todo universo, ficcional ou não, tem suas regras, suas leis. Toda personagem deve ter suas qualidades, defeitos e limitações. Vitórias devem ser conquistadas, não dadas de mão beijada. As relações entre as personagens devem se desenvolver de modo natural. Os diálogos devem soar realistas.

Em outras palavras, sua história deve ser plausível. Se você estabelece desde o começo que o vilão é a criatura mais forte do universo e que o mocinho é apenas uma pessoa comum, seria esquisito se, do nada, o mocinho vencesse a batalha.

Não que essa vitória seja impossível. Mas ela deve ser conquistada. Deve ter algum segredo para que o mocinho consiga vencer o vilão, algum poder que lhe foi concedido, alguma grande fraqueza que foi descoberta. Algo deve justificar esse acontecimento. É assim que se convence o leitor.

Uma regra que foi estabelecida de cara não deve ser quebrada mais tarde sem qualquer justificativa. Sua personagem pode superar desafios, mas não sem passar por todo um processo de evolução que justifique isso. Sua história precisa fazer sentido.

Como manter a verossimilhança em uma narrativa?

Se você quer publicar ebook com uma história convincente, precisa se atentar a alguns erros comuns que quebram de imediato a imersão do leitor. É possível colocar esses problemas em algumas categorias:

  • Erros factuais – esses aparecem quando você tenta escrever seu livro sem fazer o dever de casa e acaba incluindo uma informação totalmente errada, que qualquer leitor bem informado percebe na hora. Por exemplo, imagine se um autor gringo escreve um livro em que a Amazônia fica no Rio de Janeiro. Não dá, né?
  • Erros logísticos – não chega a ser um problema de falta de pesquisa, mas envolve uma certa falta de lógica. Acontece quando um evento da narrativa simplesmente não faz sentido. É o famoso furo do enredo (ou plot hole). Por exemplo, quando se estabelece na narrativa que você precisa de uma chave anciã para abrir um portal e, no fim, abrem o portal sem a chave e não se fala mais nisso.
  • Erros técnicos – são os erros relacionados às técnicas de construção da narrativa em si. Por exemplo, quando você escreve um livro com um determinado tipo de narrador e, no meio do caminho, sem explicação alguma, esse narrador muda, a perspectiva muda, e o leitor não entende nada. (Para saber mais, confira o artigo Uma história, múltiplos narradores).
  • Erros psicológicos – o problema aqui é a falta de insight em relação à personagem. Trata-se de quando uma personagem faz ou sente algo, mas não há um desenvolvimento da narrativa que permita que o leitor acompanhe a jornada psicológica da personagem até essa cena. O leitor pode tanto sentir que as atitudes da personagem não fazem sentido, como simplesmente não criar conexão alguma com ela.

Como você pode observar, a maioria dos problemas aqui pode ser resolvido com apenas uma qualidade: a dedicação.

Se você se dedicar mais à pesquisa, não vai incluir informações absurdas no seu livro.

Se você se dedicar mais à revisão da obra, ou até mesmo ao planejamento do enredo, vai conseguir identificar os furos do enredo e corrigi-los.

Se você se dedicar ao formato do seu texto, conseguirá construir uma narrativa consistente.

E se você se dedicar à construção das personagens, poderá mostrar em detalhes o seu desenvolvimento para o leitor.

Você já escreveu seu livro e agora está em pânico, pensando que pode ter falhado em todas essas etapas. Não se preocupe. É para isso que existe a etapa de edição! Cometer erros é normal e todo rascunho tem um enorme potencial para ser terrível.

É relendo e revisando e reescrevendo que você encontra inconsistências, furos, áreas onde você poderia pesquisar mais, pontos em que o ponto de vista narrativo está esquisito, pontos onde as ações das personagens não fazem sentido.

E, é claro, pode ser que você, sozinho, não perceba nada disso. Para isso é que serve uma segunda opinião (ou terceira, quarta, quinta). Pessoas que não têm a história inteira já na cabeça delas podem ter uma visão mais nítida do que o seu texto realmente diz ao leitor.

As partes que não fazem sentido, as partes que estão mais confusas, as partes que poderiam estar melhores. Tudo isso pode ser apontado em uma leitura crítica!

E aí, autor? Qual o seu segredo para escrever histórias mais verossímeis?

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