Como escrever um conto marcante

O conto é um ótimo ponto de partida para escritores iniciantes interessados em autopublicação. Não que seja mais fácil escrever um bom conto do que escrever um bom romance, mas é, sem dúvidas, um processo mais curto.

Muitos escritores iniciantes se jogam em projetos mirabolantes, com um enredo interminável que se desdobra em incontáveis capítulos, e quando vão ver, não dão conta de escrever até o final. Até conseguir publicar livro pela primeira vez leva uma eternidade.

O conto é uma forma curta e sofisticada da narrativa. Ele é conciso, direto, dispensa excessos. Deve prender o leitor da primeira até a última palavra, deixar os detalhes para a interpretação do leitor e se concentrar em um tom e mensagem únicos.

Um bom conto é como uma jóia lapidada, que foi trabalhada minuciosamente desde o seu estado bruto até encontrar sua forma ideal. E nada disso é simples, nada disso é fácil. Existem autores que dedicam toda a sua vida a aperfeiçoar uma pequena coleção de contos.

Contudo, aprender como escrever uma única história curta e bem trabalhada pode ser um objetivo mais interessante para iniciar sua jornada de autor independente do que se lançar a um enorme romance de cara.

Os contos, inclusive, são uma das formas narrativas mais comuns em concursos literários e antologias independentes. É bom para o “portfólio” de um autor ter diversos contos inéditos já prontos e editados à disposição, que possam ser enviados rapidamente conforme oportunidades surgirem.

O formato de um conto

Uma das primeiras tarefas do autor antes de escrever um conto é compreender o que é um conto. Em resumo, o conto é uma “narrativa breve e concisa, contendo um só conflito, uma única ação (com espaço ger. limitado a um ambiente), unidade de tempo, e número restrito de personagens” (fonte: Oxford Languages).

Como você pode perceber, um dos pontos centrais que define o conto é o seu tamanho e, por extensão, sua concisão. Portanto, ao decidir escrever um conto você deve se concentrar em um só tema, em um só arco no enredo.

Ao escrever um romance, há espaço para desenvolver diversas personagens, apresentar vários conflitos, criar arcos separados. Para transformar sua ideia em um conto, você deve reduzi-la até seu ponto mais simples, até que seja apenas um conceito, com um cenário, poucas personagens e uma ação e conflito centrais.

Como se trata de uma história simplificada em seus temas, o tom também deve ser harmônico, sem variações amplas, mantendo-se firme na essência do texto.

De qualquer forma, o conto não deixa de ser uma narrativa. Portanto, assim como o romance, ele conta com a exposição, o conflito, a ação, o clímax e o desfecho. Todos esses elementos devem estar presentes para formar uma história completa.

Ainda assim, o conto é um gênero flexível, que permite que o autor brinque com sua estrutura e se aproxime da linguagem poética como preferir, deixando espaços abertos para a interpretação do leitor onde o texto não cobre com detalhes.

Você pode, por exemplo, começar sua narrativa in media res. Isto é, no meio da ação. De certa forma, é como fazer o leitor pegar o bonde andando e ir se encontrando gradualmente conforme lê o texto. É uma técnica que não só economiza palavras no seu texto, como também tem grande potencial para prender o leitor de cara, ao intrigá-lo com os eventos.

O conto não deve ser confundido com a crônica, que é um gênero textual híbrido entre a literatura e o jornalismo. Para saber mais sobre esse gênero, leia o artigo Aprendendo como escrever uma crônica.

Muito bem, você já sabe qual é a estrutura do conto. Agora, qual o passo a passo ideal para escrever um ótimo conto?

1.     Encontre o conceito

Contos são curtos, disso você já sabe. Agora é absorver o que isso significa para o processo criativo. Não é uma boa ideia começar a escrever um conto com a mesma disposição que você começa a escrever um romance. É preciso encontrar a raiz das suas ideias primeiro, voltar ao básico.

Qual é o conceito que você deseja explorar no seu conto? Qual a pequena história que deseja contar? Qual o sentimento?

Não basta pensar só na vida de uma personagem inteira, por exemplo. É preciso ter um ângulo. O conto pode narrar desde um intervalo curtíssimo de tempo, como um evento que durou dez minutos, como abordar uma história que se prolongou ao longo de dez milhões de anos. É o ângulo que define a simplicidade.

Por exemplo, vamos supor que você queira fazer um conto sobre o surgimento do universo e a evolução da vida no planeta Terra. Você precisa se concentrar em um narrador onisciente e enxergar o próprio surgimento da vida como uma personagem.

E é a vida dessa personagem que você narrará de forma breve e concisa, passando rapidamente pelas etapas e focando em um momento em especial como o grande conflito que leva ao clímax.

Definir um tom e emoção específicos ao conto também é uma boa ideia, pois isso funcionará como a “cola” que dá identidade à sua narrativa e permite que o leitor seja envolvido.

2.     Escreva todo o rascunho de uma só vez

Um conto que pode ser lido rapidamente também pode ser escrito rapidamente. Essa velocidade no processo criativo contribui para que a sua história tenha uma unidade, que reflita os seus ideais e sentimentos em um momento específico. Às vezes, o nosso estilo de escrita e pensamentos mudam muito de um dia para o outro.

Escrever uma história inteira de uma vez pode parecer difícil, mas se torna mais fácil quando você se desprende do perfeccionismo. Aceite que seu conto não ficará perfeito de cara. Apenas jogue suas ideias no papel livremente.

Somente depois de terminar a história, você poderá revisitá-la, corrigir os erros, repensar e reescrever tudo o que quiser. Pode mudar a escolha de palavras, cortar tudo o que for desnecessário e por aí vai.

Para começar, apenas escreva.

3.     Prenda o leitor desde o começo

Um ótimo conto já é interessante desde a primeira palavra. Ele envolve o leitor desde o começo e promete que essa será uma boa jornada até o fim.

O primeiro parágrafo é como uma amostra do seu texto. É o que convence o leitor a continuar lendo ou não. Ele representa o cuidado que você teve com a escolha de palavras, o que se esperar dessa narrativa. Em um conto, cada pequeno elemento importa. Nada é supérfluo.

A primeira frase de um conto deve convidar o leitor a entrar na história. Deve ser nítido, definir a voz do narrador e, se possível, surpreender.

O título não é menos importante. Ele pode intrigar o leitor, apresentando uma ideia sugestiva e de impossível compreensão se separada do contexto, ou apresentar o tema, evento ou protagonista da história de forma simples e direta.

Observe alguns exemplos de títulos e primeiras frases de contos brasileiros:

Onze homens cercam mulher na madrugada, de Marilene Felinto

Foram ao todo onze homens para uma única mulher, numa única madrugada.

O conto de Marilene Felinto já nos alarma em seu título e primeira frase. Sem revelar o que de fato acontece, apenas apresentando as personagens e o cenário, o leitor já infere o que deve acontecer a seguir.

Uma Amizade Sincera, de Clarice Lispector

Não é que fôssemos amigos de longa data.”

Clarice Lispector, por sua vez, cria uma sensação de contradição entre o título e a primeira frase. A sensação é que virá um “mas” logo em seguida, justificando porque uma amizade que não é antiga é merecedora de se tornar um conto, mergulhando na relação e nas emoções das personagens.

Sem olhos, de Machado de Assis

O chá foi servido na saleta das palestras íntimas às quatro visitas do casal Vasconcelos.

O título “Sem olhos” nos alarma. É uma imagem desconfortante. A primeira frase, por sua vez, é a mais casual e direta possível. Somos apresentados às personagens, ao cenário, à ocasião e é tudo tão comum quanto possível. Como essa normalidade se relaciona ao título do conto? Como essa história se desenvolverá?

O Santo que não acreditava em Deus, de João Ubaldo Ribeiro

Temos várias espécies de peixe neste mundo, havendo o peixe que come lama, o peixe que come baratas do molhado, o peixe que vive tomando sopa fazendo chupações na água, o peixe que, quando vê a fêmea grávida pondo ovos, não pode se conter e com agitações do rabo lava a água de esporras a torto e a direito ficando a água leitosa, temos o peixe que persegue os metais brilhantes, umas cavalas que pulam para fora bem como tainhas, umas corvinas quase que atômicas, temos por exemplo o niquim, conhecido por todas as orlas do Recôncavo, o qual peixe não somente fuma cigarros e cigarrilhas, preferindo a tálvis e o continental sem filtro, hoje em falta, mas também ferreia pior do que uma arraia a pessoa que futuca suas partes, rendendo febre e calafrios, porventura caganeiras, mormente frios e tantas coisas, temos os peixes tiburones e cações, que nunca podem parar de nadar para não morrer afogados.

E, por fim, temos o estilo de João Ubaldo Ribeiro que de conciso não tem nada. Em vez disso, é natural e solto ao extremo. Desde o comecinho do texto já sentimos a forte identidade da voz do narrador e, com esse começo que remete tanto à oralidade, não sabemos exatamente como isso se torna uma história… e é por isso mesmo que é interessante. É como se estivéssemos ouvindo o conto de um pescador em primeira mão.

4.     Seja sugestivo, não elabore demais

O que todos os textos acima têm em comum é que eles deixam espaços abertos, para o leitor preencher com sua própria interpretação. Ao escrever um conto, em geral não se deve contar em detalhes toda a vida de cada personagem, nem explicar demais o que está acontecendo.

É a caracterização que dá vida à personagem. A maneira que ela age em cena, descrições curtas sobre ela que se relacionam à temática do conto, são esses elementos que têm valor. O resto deve ser preenchido pela imaginação do leitor.

A sugestão do que vem a seguir também é importante. É atravessando essas expectativas que se pode criar reviravoltas em um conto. Você faz com que o leitor espere algo e, em vez disso, outra coisa acontece. Algo verossímil dentro dos parâmetros do seu universo narrativo, mas que subverte as expectativas criadas pelas dicas que você deixou ao leitor.

5.     Feche com chave de ouro

O conto deve ser bom do começo ao fim. Por isso, nunca subestime a importância do clímax e do desfecho. Se você perguntasse para Edgar Allan Poe, ele diria inclusive que você deve começar a escrever uma história já pensando no final, de modo que cada mínimo evento em sua narrativa contribua para esse desfecho.

O desfecho do seu conto deve fazer sentido para o leitor, mas ao mesmo tempo impactante. Nem sempre é necessário um final cheio de reviravoltas para agradar o público, mas pode ser decepcionante ler um conto previsível demais.

O fim deve ser o ápice das emoções, a conclusão dos eventos, o momento em que culmina toda a construção da sua narrativa até então.

Para aprender mais com o mestre, dê uma olhada no nosso artigo Descubra como escrever um conto ou poema fascinante com Edgar Allan Poe.

Extra: Reduza o seu texto ao essencial

Você terminou de escrever seu conto. Quer transformá-lo em um conto excepcional? Edite. Edite muito. Releia, reescreva, corte tudo o que for supérfluo. Encontre as palavras exatas para cada pedacinho do seu texto. Não desperdice uma letra.

Mesmo que seja preciso gastar tempo e energia, não desista de refinar seu conto. Não desista enquanto ele não tiver um título marcante, uma primeira frase impactante e um final que o seu leitor não conseguirá escrever.

E, como o conto é tipicamente um gênero textual curto, o lado positivo é que você poderá continuar escrevendo outras histórias e trabalhando em outros projetos enquanto não considera o seu conto “concluído”. Poderá revisitá-lo sempre que sobrar um tempinho, sem problemas.

No mais, o verdadeiro segredo para escrever um bom conto é nada mais, nada menos do que ler. Leia muito, conheça a estrutura do gênero, encontre seus estilos favoritos, busque uma voz que inspire a sua. E escreva.

E aí, autor? Já publicou um livro de contos? Comente aqui.

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