Como escrever o começo de uma história

O começo de um livro tem grandes responsabilidades. Não só forma a primeira impressão do leitor, o que pode significar uma venda a mais ou a menos do seu ebook, como também define todo o tom da narrativa. Não basta só “começar do começo”, o escritor precisa escolher bem quais palavras serão a porta de entrada da sua história.

Existem várias formas de fazer um começo ruim para o seu livro, e todas costumam envolver uma falta de compreensão da função que aqueles primeiros parágrafos têm dentro da narrativa. É mais do que causar impacto, é uma questão de levar o leitor na direção certa. Por exemplo, se você quer escrever uma história de terror, é uma boa ideia estabelecer uma atmosfera desconfortável desde o começo, mesmo que os verdadeiros horrores só se revelem muito depois na narrativa.

Ensinar um autor como escrever um bom começo para sua história é uma atividade arriscada, justamente porque podemos ignorar as singularidades de cada livro e cada gênero textual e, inadvertidamente, incentivar a construção de novos clichês.

A dica de autopublicação de hoje não vai por aí. Queremos que você pare e pense: como eu posso arrebatar o meu público-alvo com as primeiras palavras do meu ebook? Como eu posso preparar o terreno para a minha narrativa logo nos primeiros parágrafos?

Antes de mais nada, um aviso. O processo de criar um começo incrível para a sua história é muito mais um trabalho de edição do que escrita em si. Para começar a escrever seu livro, o ideal é que você escreva qualquer coisa, desde que seja alguma coisa, e engate a partir daí sem pensar muito no assunto. É mais produtivo desse jeito. Quanto menos espaço para a autocrítica e a insegurança, menos você sofrerá com o temido bloqueio criativo.

Contudo, uma vez que o livro está ali, escrito, prontinho na sua frente, é hora de subir o nível e transformá-lo em uma obra profissional. É aí que você se questiona: esse começo está bom de verdade? E para responder essa pergunta, você deve entender não só o livro que escreveu, mas o livro que quer publicar.  Em outras palavras, você deve pensar nos objetivos do seu projeto. Pergunte-se:

  • Qual o gênero do meu ebook?
  • Quem é meu público-alvo?
  • Qual o tom da história?
  • Que tipo de atmosfera quero criar?
  • Como é o ritmo desta narrativa?
  • Qual a primeira impressão que quero causar no público? (E aqui, você deve pensar duas vezes, pois nem sempre o que o autor quer é o que o livro precisa)

Ao levar todos esses elementos em consideração, você é capaz de publicar livro com um começo que coloca as expectativas corretas na cabeça do leitor. Isso contribui para que o seu público-alvo encontre seu livro e que pessoas que procuram algo diferente do que você tem a oferecer fiquem longe dele.

Se um livro conta uma história que começa triste e termina feliz, não basta escrever um começo totalmente deprimente. É preciso fazer o leitor sentir que essa jornada será difícil, mas inspiradora. Caso contrário, é provável que seu leitor ideal desista de ler o livro por achar que ficará mais triste depois de ler do que quando começou, e que outros leitores que só gostam de finais deprimentes se interessem pela história e fiquem frustrados com o final feliz.

Isso não significa que o começo de um livro deve entregar tudo o que acontecerá até o final. Nada disso. É mais uma questão de trabalhar indiretamente as expectativas do leitor ao apresentar elementos narrativos. Veja algumas formas de se começar um livro:

1.     Media res – comece no meio da ação

Do latim, media res significa “no meio das coisas”. Essa técnica consiste em começar um livro no meio da história, durante uma ação, em vez do início em si. Nesse modelo, a ordem cronológica é quebrada. Primeiro, o leitor pega o bonde andando, para somente depois ser explicado como é que as personagens chegaram onde estão.

Uma das vantagens de optar pelo media res é a sua dinamicidade, o que dá ao autor ótimas chances de engajar o leitor logo de cara. O apelo é a curiosidade.

O ponto fraco: você precisa tomar muito cuidado para não deixar seu começo confuso demais. Um certo nível de confusão deixa o leitor com gosto de quero mais. Exagere na dose, e ele poderá ficar frustrado e abandonar a leitura.

2.     Mostre um diálogo

Muitos livros começam diretamente com a fala de alguma personagem. Essa técnica também é intrigante, pois o leitor é apresentado a uma voz sem ao menos saber a quem ela pertence. O elemento da curiosidade também está presente, e pode ser uma excelente forma de se apresentar as personagens e suas relações interpessoais ao leitor logo de cara.

Quando um livro começa com uma fala, isso sugere ao leitor que as relações interpessoais são um fator importante naquele livro, assim como as personagens em si. Caso seja esse o tom desejado, é uma boa pedida.

Há também um risco: pode ser que o leitor fique desinteressado ao ler esse diálogo justamente por não conhecer as personagens ainda. Por isso, é importante que as falas em si transmitam uma mensagem impactante ao seu leitor ideal.

3.     Descreva um cenário

A descrição de um cenário é uma das mais clássicas formas de se começar um livro. O motivo é óbvio: você está apresentando o plano de fundo da sua história ao leitor. Assim, ele terá acesso a algum tipo de contexto e poderá imaginar o universo onde seu livro se situa.

Contudo, cenários nem sempre são cativantes. Ao começar pelo elemento mais óbvio, você pode falhar na simples tarefa de prender o leitor. Por isso, só recomendamos que você escolha essa opção caso ela realmente se encaixe no gênero do seu livro, ou caso o seu cenário por si só seja intrigante, envolvente.

4.     Pensamentos, filosofias, divagações

Algumas histórias não começam nem com um cenário, nem com ação, nem com diálogos, mas sim com pensamentos. O narrador, seja em primeira ou terceira pessoa (quem sabe até em segunda), pode apresentar uma filosofia de vida, uma opinião sobre um certo tema. Pode divagar sobre qualquer assunto.

Por mais vago e abstrato que pareça, existem livros conceituadíssimos que começam exatamente dessa forma. Funciona. A regra é simples: esse modelo precisa combinar com o gênero do seu livro, que por definição deve ser bastante contemplativo, provavelmente com outros momentos de divagação do narrador; e a escolha de palavras deve ser impactante.

Se você quer escrever um livro no qual o narrador tem opiniões (ou dúvidas), é importante que o leitor interaja com essas opiniões. Seja concordando, discordando ou refletindo sobre elas. Quer algo mais interessante do que um livro que faz o leitor refletir? Às vezes basta uma frase para fazer um leitor passar a noite em claro.

É assim o começo do livro A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera:

O eterno retorno é uma ideia misteriosa, e Nietzsche, com essa ideia, colocou muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?

Fica a reflexão.

E aí, autor? Já está pronto para escrever o começo do seu livro?

3 Comentários

  1. Marcos Roberto dos Santos

    Maravilhoso o artigo! Necessito sair da fase de bloqueio.
    Sou negro, mas, quero escrever para homens, em tempos de atomização masculina, as conversas que tenho com meu filho de 12 anos.

    Parabéns! Adorei o artigo.

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  2. Luiz Antonio Magalhães Pires de Aragão

    Tenho aprendido bastante através BiblioMundi. Obrigado pelos seus posts.
    Cordialmente,
    Luiz antônio Magalhães

    Responder

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