Como escrever cenas bem estruturadas? Método de Dwight Swain

Escrever bem é uma habilidade difícil de se ensinar. Há um consenso de que a escrita criativa é algo pessoal, que cada um desenvolve do seu próprio jeito, além do fato de existirem diversos tipos de leitores com gostos únicos, dois fatores que complicam na hora de tentar ensinar de forma objetiva como escrever com “perfeição”.

No entanto, existem técnicas que podem ser muito úteis na hora de escrever um livro para autopublicação. Não se trata das palavras que você escolhe, nem das suas ideias de histórias para escrever, mas da maneira que você estrutura as cenas do seu ebook.

A melhor medida para a qualidade de um livro, é a eficácia do autor em transmitir suas ideias e agradar o público-alvo. Isso vai além da sua capacidade de fazer um enredo bem planejado ou de escrever certo. Se você quiser publicar ebook de sucesso, é uma boa ideia começar trabalhar na estrutura das suas cenas o quanto antes.

Quando você estrutura suas cenas de maneira inteligente, o seu texto se torna mais eficaz. O motivo é simples: suas ideias ficam mais organizadas, o leitor acompanha melhor o que está acontecendo, o texto fica mais fluente e agradável.

Para a sua sorte, existem outros escritores que dedicaram seu tempo para testar e comprovar técnicas de estruturamento de cenas, e Dwight Swain encontrou o mais próximo que podemos chamar de uma fórmula perfeita.

Como escrever a estrutura em grande escala de uma cena

O método de Dwight Swain envolve alguns conceitos importantes, como a estrutura em grande e pequena escala. A estrutura em grande escala envolve dois tipos de cenas: as “Cenas” e as “Continuações”. Sim, é uma nomenclatura confusa. Por isso, quando estivermos falando dos conceitos de Dwight Swain, vamos utilizar os termos em inglês: “Scene” (cena) e “Sequel” (continuação).

O conteúdo de uma Scene e de uma Sequel é diferente. As Scenes contêm:

  1. Um objetivo
  2. Um conflito
  3. Um desastre

Enquanto isso, as Sequels contêm:

  1. Uma reação
  2. Um dilema
  3. Uma decisão

Como você pode perceber tanto pelo nome, quanto pelo conteúdo, as Scenes vêm primeiro e apresentam uma ideia, um problema a ser resolvido. As Sequels são a reação ao que acontece nas Scenes. Depois da Sequel, é concluída essa ideia, o que leva a uma nova Scene. Segundo Swain, você deve seguir esse padrão até o fim da história.

Talvez esse modelo pareça limitador a princípio, e talvez até seja. Contudo, inúmeros escritores se deram bem com esse método, e pode ser exatamente o que você precisa para aprender como escrever livros eficazes.

Para seguir o modelo de Dwight Swain, você deve pensar em quem é a personagem principal de cada cena. Ou seja, a personagem cujo ponto de vista é exposto pelo narrador. Às vezes, a personagem principal de uma cena não é o protagonista do livro. Por isso, sempre que falarmos da “personagem principal”, estamos nos referindo à personagem central na cena especificamente.

Tendo isso em mente, podemos começar…

Como é a estrutura das Scenes?

As Scenes, como acabamos de mencionar, são feitas de um objetivo, um conflito e um desastre. Essas são as três partes que constituem uma cena, e elas devem ser organizadas exatamente nessa ordem.

O objetivo é aquilo que a personagem principal deseja no começo de uma Scene. Esse objetivo deve ser nítido e específico, de modo que a sua personagem principal possa agir de maneira proativa. O objetivo contribui para que o seu leitor se identifique com a personagem.

O conflito é uma série de obstáculos que atrapalha a personagem principal a alcançar seu objetivo. Essa parte é essencial para que o seu leitor possa se emocionar e se empolgar lendo seu livro.

O desastre é quando a personagem principal não consegue alcançar seu objetivo. Essa parte é necessária para que o enredo tenha continuidade e o leitor se mantenha interessado na história.

Simples assim, essa é a estrutura de uma Scene. É isso. Agora, vamos seguir em frente para as Sequels.

Assim como as Scenes, as Sequels têm uma estrutura rígida, que deve ser respeitada. O propósito da Sequel é dar continuidade ao que aconteceu na Scene. Houve um desastre e agora o objetivo é solucioná-lo.

A Sequel começa com uma reação. É a resposta emocional ao desastre que ocorreu na cena anterior. É hora de mostrar sua personagem principal sofrendo. Se algo ruim acontece, as pessoas ficam abaladas, e o mesmo vale para as personagens. Novamente, o primeiro estágio é responsável pela identificação do leitor com a personagem.

O dilema é uma situação em que não há uma solução agradável. A personagem principal precisa tomar uma decisão difícil, e você deve mostrar esse processo, trabalhar em cima da dúvida. A ideia é que o leitor também fique na dúvida sobre o que vai acontecer.

A decisão é quando a personagem principal escolhe a solução para o dilema. Nesta hora, a personagem principal volta a ser pró-ativa, devolvendo o ritmo da história. É um momento empolgante.

E pronto. Você fechou o ciclo, é hora de começar outra Scene! A estrutura em grande escala sugerida por Dwight Swain funciona tão bem exatamente por ser cíclica. Cada parte da estrutura leva para a próxima, de modo que o seu enredo está sempre em movimento, sempre seguindo adiante. O seu leitor nunca vai achar sua história parada demais.

Como escrever a estrutura em pequena escala de uma cena

Dominar a estrutura em grande escala é apenas metade da batalha que é escrever uma cena. Agora, você deve aprender como escrever considerando a estrutura em pequena escala. É hora de aprender como estruturar os seus parágrafos de maneira eficaz.

Para isso, Dwight Swain recomenda o uso de “Grupos de Motivação/Reação” (Motivation-Reaction Units). Vamos chamá-los de GMRs.

Os GMRs consistem de uma combinação de “motivação”, isto é, um elemento concreto que motiva sua personagem principal, e “reação”, que são as atitudes tomadas pela personagem principal em resposta a essa motivação. A motivação e a reação devem ser apresentadas em parágrafos separados. Sempre.

A motivação é um fator externo e objetivo. Algo que a personagem principal possa ver, ouvir, cheirar, provar ou sentir. Você não precisa de mais do que um parágrafo para apresentar a motivação.

Ex.: “O tigre pulou da árvore e disparou em direção à Ana.”

Como você pode observar, é uma descrição objetiva. Não há nenhuma indicação do ponto de vista da personagem principal, mas é algo concreto que exigirá uma reação dela. Essa descrição pode ser tanto complexa quanto simples, desde que nunca seja subjetiva.

A reação é interna e subjetiva. Você deve apresentar a experiência da personagem principal ao leitor. A reação pode levar um ou mais parágrafos, mas jamais pode ocorrer no mesmo parágrafo que a motivação.

Ex.: “Um raio de adrenalina atravessou o corpo da Ana. Sem pensar duas vezes, ela botou o rifle no ombro, mirou no coração do tigre e apertou o gatilho.

– Morre, desgraçado!”

A reação é, por natureza, mais complexa do que a motivação. Ela explora os processos internos da personagem principal ao lidar com o que ocorreu no parágrafo de motivação. No exemplo do tigre, a primeira reação é o medo. Em seguida, entra o instinto. Depois dessas primeiras reações automáticas, é possível agir racionalmente. Nessa hora, sua personagem poderá pensar, agir, falar.

É importante mostrar os processos internos da personagem principal na ordem em que acontecem, fazendo com que o leitor se coloque no lugar dela. Primeiro, as reações instantâneas, instintivas, automáticas. Depois, a razão, a reflexão.

Podemos organizar a reação em três partes:

  1. Sentimento: “Um raio de adrenalina atravessou o corpo da Ana”. Essa é a reação instantânea, por isso, ela vem primeiro.
  2. Reflexo: “Sem pensar duas vezes, ela botou o rifle no ombro”. O reflexo é a reação instintiva ao sentimento da personagem principal. Ele vem em segundo lugar.
  3. Razão e ação: “mirou no coração do tigre e apertou o gatilho. – Morre, desgraçado!” Para mirar e atirar, é necessário agir racionalmente. Essa é a resposta racional ao perigo. Por isso, é a última parte.

É possível escrever uma reação sem incluir todos essas três partes, mas existem algumas regras. Você precisa incluir pelo menos uma das partes e as partes incluídas devem seguir a ordem correta. Logo, se a sua reação contar com apenas “sentimento” e “razão e ação”, o “sentimento” deve vir primeiro e por aí vai.

Depois da reação, você deve escrever outra motivação. Novamente, é uma estrutura cíclica, que deve ser respeitada ao longo de todo o seu livro para que o enredo flua naturalmente.

Como escrever um livro inteiro utilizando esse modelo?

A essa altura, talvez você esteja pensando que essas regras são malucas e que é impossível escrever um livro inteiro seguindo essa estrutura. E quer saber? A princípio é mesmo. Então esqueça as regras. Escreva seu livro à vontade. É sério.

Terminou de escrever? Muito bem. É hora de editar seu próprio livro. Reescreva tudo utilizando as regras de pequena à grande escala.

Analise as cenas que você escreveu. Defina se essa cena é uma Scene ou uma Sequel. Se a cena não se encaixar em nenhuma das duas definições, então você deve alterá-la até que se encaixe ou descartá-la.

Lembre-se que as Scenes têm um objetivo, um conflito e um desastre. Identifique cada um desses elementos na cena. O mesmo vale para a Sequel, que deve ter uma reação, um dilema e uma decisão.

Organize suas Scenes e Sequels, intercalando entre as duas de maneira que faça sentido para  a sua história. Em seguida, reescreva ou adapte cada cena de modo que elas sigam o modelo GMR.

Não se esqueça de que as motivações e as reações devem ficar em parágrafos diferentes. Ao separar o texto em parágrafos, talvez você encontre trechos que não se encaixam na GMR. Delete-os sem piedade.

Garanta que toda motivação seja puramente objetiva e explore toda a subjetividade das reações. Organize as etapas de uma reação conforme ensinamos: primeiro sentimento, depois reflexo e por fim razão e ação.

E é isso. Você escreveu uma cena perfeitamente estruturada. Continue treinando e, eventualmente, seguirá essa estrutura sem nem pensar.

E aí, autor? O que achou do método de Dwight Swain para escrever cenas bem estruturadas? Experimente e compartilhe os resultados!

8 Comentários

  1. Thomaz

    Parabéns pelo texto e pela aula. Somente sugiro não utilizar termos em inglês sem necessidade. Poderia muito bem falar de Cenas e Continuações sem chamá-los de Scenes e Sequels. Além de valorizar nossa língua, torna mais simples a assimilação. Abraço!

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  2. MARCOS VINICIOS NEGRETTO

    Ótimo conteúdo e forma de explicação!
    Vai me ajudar bastante.

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  3. Já tinha visto esse conceito, mas ele foi tratado superficialmente em um curso que fiz. Na época achei legal, mas confuso. Com tudo explicado nesse artigo tudo ficou mais… confuso rs. Mas deu para entender melhor o poder dessa ferramenta.

    Estava sentindo falta disso nas minhas cenas, uma maneira de criar continuidade entre elas. Bem, agora me resta sentar e reestruturar meu livro.

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