Como escrever diálogos realistas – Parte 2

No artigo anterior, falamos sobre como a voz de uma personagem pode revelar muito sobre quem ela é. Todas essas características que são representadas de forma implícita em um texto podem ser consideradas subtexto. E é esse o primeiro quesito que vamos ensinar você a desenvolver agora.

Texto versus subtexto

Um dos maiores dilemas enfrentados pelos escritores é como incluir informações de maneira adequada no texto. Com medo de que os leitores sintam-se perdidos sem explicações sobre o contexto, muitas vezes sobra para as personagens a obrigação de explicar tudo o que está acontecendo. Até mesmo as coisas que são óbvias para quem está vivendo a cena.

Coloque-se no lugar das personagens. Entra em cena um amigo da família, que todos conhecem. Como você o cumprimentaria? O mais natural seria dizer um “oi, tudo bem?” e não “olá, senhor amigo da minha família que eu conheço desde que tinha 4 anos de idade”.

Esse foi apenas um exemplo bobo, em que a informação contextual tratava-se da identidade da nova personagem. No entanto, em diversas situações o que precisa ser revelado é mais complicado e crucial para o enredo.

Em ambos os casos, uma regra deve ser aplicada: pessoas não revelam uma para a outra informações que ambas já sabem. Para algo ser “revelado”, precisa ser novidade. E, para que o seu diálogo seja realista, as personagens devem falar apenas o que fizer sentido e quando fizer sentido.

Para evitar esse problema, existem duas soluções muito úteis:

  1. Perguntar a si mesmo se é realmente necessário expor essa informação ou se ela pode ser insinuada no subtexto, de maneira que permita ao leitor ler nas entrelinhas. Assim, você pode construir o enredo gradualmente e sem subestimar seu público.
  2. Criar uma situação em que faça sentido para as personagens mencionarem essa informação em voz alta. Por exemplo, uma discussão onde as verdades são jogadas na cara ou um desabafo com outra personagem que, assim como o leitor, não sabia de nada.

A verdade é que o leitor não precisa saber de cada ínfimo detalhe da história desde o começo. Uma narrativa pode ser construída de diversas maneiras diferentes, e a exposição de informações é um dos fatores-chave na definição do seu estilo.

Pense nas obras de ficção que você já leu ou assistiu. Lembre-se das inúmeras possibilidades narrativas, de todas as vezes que uma história marcou você pela maneira em que ela se revelou.

Um excelente exemplo de narrativa alternativa é o filme nacional Beira-Mar (2015), com direção e roteiro de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon. O longa retrata a viagem de dois garotos, Martin e Tomaz, para uma cidade litorânea, onde Martin precisava resolver problemas familiares.

No começo, não sabíamos exatamente porque estavam viajando, qual a relação entre os dois, muito menos suas histórias de vida. Nada era revelado de maneira óbvia. No entanto, a cada cena, com base nos acontecimentos, era possível perceber uma coisa ou outra e, juntando os pedaços, formar uma história concreta.

Entre as técnicas narrativas utilizadas, havia:

  • Conflito – enquanto Martin tentava resolver os problemas com sua família, era possível entender que ele foi enviado por seu pai para buscar um documento com parentes distantes, que guardavam grande ressentimento. Todas essas informações estavam presentes no diálogo, mas nada desnecessário ou pouco natural era mencionado
  • Descoberta e confronto – uma das personagens mexe nos objetos pessoais da outra, o que leva a uma conversa reveladora depois. As informações reveladas envolvem mais do que o objeto visto, mas também conhecimento prévio das personagens que o público não sabia
  • Desabafo – em determinado momento, Martin compartilha com Tomaz uma das suas memórias de infância vividas na casa da praia. O desabafo, natural e informal, revela muito sobre a relação familiar de Martin e seus complexos
  • Terceiros – às vezes, o necessário para revelar uma informação importante ao público é retirar as protagonistas de seu círculo e fazê-las interagir a sós com terceiros. Em Beira-Mar, Tomaz conversa com uma garota que estava interessada nele e revela seus sentimentos em relação à viagem. Martin, por sua vez, liga para o pai

Ainda que você explore todos os recursos narrativos possíveis para revelar informações, é essencial levar em consideração os elementos principais da sua história, o que merece ser revelado ou não.

Verdade seja dita, ainda que seu ebook não seja de suspense, é sempre válido deixar algumas coisas no ar, fazer seus leitores usarem a cabeça e a criatividade um pouco.

Além disso, gêneros literários diferentes possuem prioridades diferentes. O que é importante para sua história vai variar de acordo com o que você quer escrever e o que seu público-alvo quer ler.

Por exemplo, livros de aventura e fantasia devem focar em ações e descrições de cenários fantásticos, enquanto obras slice of life introspectivas costumam dar destaque para os sentimentos e pensamentos, por vezes descrevendo os cenários somente para refletir a relação entre o ambiente e as emoções das personagens.

Ainda no exemplo de Beira-Mar, questões materiais, como qual documento o pai de Martin queria, não eram consideradas importantes. O foco não estava na possível briga judicial, mas sim nos conflitos familiares e como isso afetava o protagonista.

Ao priorizar de maneira nítida determinadas informações e ignorar outras, você contribui para a definição do tom de sua história e guia o leitor de maneira sutil através das experiências de sua narrativa.

Assim, o público pode preencher os espaços vazios com sua imaginação e ainda respeitar o tipo de sentimento que você, autor, buscava causar.

O excesso de informações não só pode deixar sua história confusa, como também entediar o leitor, que, assim como o autor, deve ter prioridades. Em outras palavras, seu público em geral não está interessado em saber cada mínimo detalhe do mundo que você inventou.

Cabe a você filtrar o que deve ou não ser mencionado e, só então, considere quais os recursos narrativos você pode utilizar para incluir essas informações no diálogo.

Pontuação e descrições

Por fim, entramos nos últimos aspectos necessários para escrever um bom diálogo: pontuação e descrições.

Uma dúvida comum entre escritores é qual marcador deve ser utilizado para sinalizar a fala: travessão ou aspas. A verdade é que ambas as opções estão corretas, mas, no Brasil, o uso do travessão é mais comum, enquanto em língua inglesa há preferência pelas aspas.

É importante, no entanto, se atentar às regras de pontuação específicas, que podem variar das aspas para o travessão.

Capitalização das descrições

Uma regra geral que se aplica à pontuação em diálogos é que a descrição que segue a fala, caso seja uma frase completa que descreve ação, começa com letra maiúscula. Caso a descrição use apenas um verbo dicendi, isto é, um verbo que descreve fala, deve iniciar com letra minúscula.

Por exemplo:

— Você gosta de jabuticaba? — perguntou Eliane.

“Você gosta de jabuticaba?” perguntou Eliane.

— Você gosta de jabuticaba? — A Eliane esticou o braço em uma tentativa de alcançar a fruta.

“Você gosta de jabuticaba?” A Eliane esticou o braço em uma tentativa de alcançar a fruta.

Em resumo, se o texto que acompanha a fala descreve ação, usa-se letra maiúscula. Se ele descreve a fala, usa-se letra minúscula.

O que define a capitalização é o verbo, e não a pontuação. Podemos observar isso nos exemplos acima, onde a interrogação não influencia a presença de letras minúsculas.

Outro adendo necessário é sobre a ordem das palavras nas descrições de fala. Quando há presença de verbo dicendi, ele sempre precede o sujeito, assim como nos exemplos acima. Ou seja, o certo é “perguntou Eliane” e não “Eliane perguntou”.

E o ponto final?

Quando o assunto é pontuação, vale ressaltar que caso a fala não precise de interrogação ou exclamação, a princípio, ela terá um ponto final, como de costume. No entanto, outros elementos do texto podem eliminar ou substituir o ponto.

Observe que, nestes exemplos, o ponto final está presente:

— Vendo bolo.

“Vendo bolo.”

No entanto, há uma mudança aqui:

— Vendo bolo — disse Chris.

“Vendo bolo,” disse Chris.

Quando há presença de aspas e um verbo dicendi, o ponto final da fala é substituído por uma vírgula, pois tanto a fala quanto a descrição são considerados como parte da mesma frase.

Essa regra não se aplica quando a descrição inclui uma ação e é considerada como uma frase a parte da fala. Da mesma forma, a exclamação e a interrogação não podem ser omitidas ou substituídas por vírgulas, pois elas atribuem significado e tom específicos para a fala.

Para ilustrar melhor, observe mais exemplos:

— Eu não estou com fome —  respondeu Luciano.

— Eu não estou com fome. — O Luciano afastou-se da lanchonete.

“Eu não estou com fome,” respondeu Luciano.

“Eu não estou com fome.” O Luciano afastou-se da lanchonete.

Vírgulas e descrições

Uma questão importante é como pontuar um diálogo que possui descrições com verbo dicendi no meio da fala. Há duas possibilidades diferentes. Em caso de travessão, é acrescentada uma vírgula após o segundo travessão. Em caso de aspas, as vírgulas são acrescentadas antes das aspas que precedem a descrição e o resto da fala.

Observe:

— Ela sabe falar inglês muito bem — disse a Isabella —, mas nunca aprendeu italiano.

 “Ela sabe falar inglês muito bem,” disse a Isabella, “mas nunca aprendeu italiano.”

Quando uma descrição com verbo dicendi separar duas frases diferentes, por sua vez, a descrição será atrelada à primeira frase, seguida de ponto final e, então, da próxima frase.

— Ela sabe falar inglês muito bem — disse a Isabella. — Agora, italiano já é outra história.

 “Ela sabe falar inglês muito bem,” disse a Isabella. “Agora, italiano já é outra história.”

Vocativo

Por fim, uma última dica importante é como utilizar o vocativo. Trata-se de qualquer termo utilizado para chamar ou interpelar alguém. Por exemplo:

“Jonathan, volte aqui!”

“Você pode me explicar essa tarefa, Sergio?”

“Meu Deus do céu, socorro!”

“Gente, eu não estou entendendo nada.”

“Manhê, faz a janta pra mim!”

“Olha só, garota, você me respeita.”

O vocativo não possui qualquer conexão sintática com os outros elementos da oração. Ele não é parte nem do sujeito, nem do predicado. Por isso, deve sempre estar separado do resto da frase com vírgulas.

As descrições

Saindo do campo gramatical, há muito o que se discutir no campo das descrições relacionadas às falas. Há a necessidade de encontrar um equilíbrio ideal entre a narração e o diálogo, e para muitos autores, os espaços vazios são um pesadelo.

Nos deparamos, então, com duas possibilidades de erro: pecar pelo excesso ou pela falta. Por um lado, os espaços em branco na página são um alívio para os leitores ocupados e estressados, que podem descansar um pouco os olhos sem interromper a leitura.

No entanto, quando o diálogo domina as páginas, não só o autor parece preguiçoso, como também aliena as personagens do cenário. De repente, o diálogo se torna parecido com uma conversa no Whatsapp: apenas palavras, zero contexto.

O outro lado da moeda são os autores que, em uma tentativa de fugir do vazio, descrevem cada mínima ação que as personagens executam durante a conversa e, para coroar, usam um verdadeiro dicionário de verbos dicendi.

Temos, então, diálogos como este:

— Eu odeio você! — bradou Ella raivosamente, que subiu, então, as escadas com passos lamuriosos e pesados. Ela estava furiosa com seu pai, Robert.

Podemos observar um excesso de indícios de que a personagem, Ella, está furiosa com seu pai. Desde a própria fala dela ao advérbio “raivosamente”,  ao adjetivo “lamuriosos” e também à frase que diz com todas as letras que ela está furiosa.

O leitor não precisa de tudo isso. A personagem já deixou seus sentimentos explícitos na fala, e, caso você queira confirmá-los com ações, também não há a necessidade de usar tantos adjetivos e advérbios e muito menos de completar com uma frase descritiva depois. Isso é basicamente um insulto à capacidade de interpretação do público.

Em vez disso, é possível manter o texto simples e ainda assim passar a mensagem desejada. Por exemplo:

— Eu odeio você! — berrou Ella, subindo as escadas com passos pesados e barulhentos.

Aqui, mantivemos a descrição e eliminamos todos os elementos repetitivos e exagerados. Para concluir, também substituímos o verbo dicendi “bradar” por uma opção mais comum, que não atrai tanta atenção para si.

Embora o excesso de espaços vazios seja um problema, bani-los completamente de seu texto não é o caminho. Seja excesso ou escassez, a resposta para esse dilema é nada mais, nada menos do que o equilíbrio.

É compreender onde as descrições são necessárias para complementar o diálogo e onde o vazio cai bem. E, é claro, podemos ajudar você com isso também.

Como equilibrar os diálogos

Muitos autores se preocupam com o uso excessivo dos “marcadores de diálogo”, isto é, os verbos dicendi. “Ele disse”, “ela disse”, “fulano disse”. Depois de usar o verbo dizer pela vigésima vez, pode parecer um pouco repetitivo para quem escreve.

A questão é: para os leitores, esses verbos comuns são praticamente invisíveis. Ou seja, quando um leitor lê “ela disse” ou “fulano disse”, a única informação que ele absorve é qual personagem falou e pronto.

Isso salva a eles o trabalho de reler todo o diálogo para descobrir quem disse o que, e também impede que seus olhos sejam agredidos por verbos dicendi um tanto exóticos, como “esbravejou”.

Quanto às descrições, é importante incluí-las em meio ao diálogo vez ou outra para que o público consiga visualizar as personagens dentro de um cenário, um contexto. No entanto, isso não é desculpa para exageros.

Sempre que possível dê preferência para as descrições que adicionem significado ao texto e possam aguçar ou até mesmo mudar a percepção do leitor. Mostre mais do que o cenário, faça com que o leitor enxergue sentimentos por trás das ações.

Como falamos anteriormente, os diálogos, junto às descrições, são uma excelente oportunidade para pôr em prática o “show, not tell”. Assim, em vez de contar para o leitor o que a personagem está sentindo, você pode descrever suas ações, a maneira que ela enxerga o cenário, e desenvolver uma trama complexa e capaz de envolver intimamente até o leitor mais ocupado.

A relação entre público e livro se fortalece com a interpretação. A sensação de que o leitor, com sua própria percepção, descobriu coisas sobre aquela personagem que nem mesmo estavam escritas no ebook. É tornar um livro seu melhor amigo.

Esse é o poder de um bom diálogo. A capacidade de tornar você o best-seller de amanhã.

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