Como escrever diálogos realistas – Parte 1

Seja em livros de não ficção narrativa ou literatura, os diálogos são um importante recurso na escrita. Eles dão voz às personagens e mudam o ritmo do texto, oferecendo valiosos espaços em branco onde antes havia blocos de texto.

No entanto, redigir diálogos com maestria não é fácil. Mesmo autores com carreiras consolidadas podem enfrentar dificuldades nessa tarefa. E, por ser um recurso tão relevante, torna-se evidente quando foi bem feito ou não.

Um diálogo entediante ou artificial logo no início do ebook pode ser o elemento chave que define se o leitor abandonará o livro ou continuará lendo. Se estiver presente na amostra, então, pode representar uma venda perdida.

Por isso, hoje reunimos dicas sobre como escrever diálogos realistas que podem ajudar escritores dos mais diversos gêneros.

Naturalidade e fluência

O primeiro quesito que abordaremos, talvez também o primeiro a ser notado pelos leitores, é a naturalidade com a qual o diálogo flui. Um texto fluente é agradável e descomplicado, a leitura não é forçada. É o tipo de livro que pode ser lido sem pausas, até o leitor não poder mais.

Provavelmente, é esse o efeito desejado para o seu ebook. Nada melhor do que produzir um conteúdo que possa ser devorado pelos leitores e deixá-los querendo mais. (E isso se mostra ainda mais verdadeiro no mundo de livros curtos e baratos.)

Então, mãos a obra. Anote em seu caderninho as “regras” a seguir:

  1. Não repita o nome das personagens sempre que possível
  2. Evite excesso de formalidade a não ser que caiba no contexto
  3. Não transcreva sotaques, dê preferência a marcas de dialeto

É possível que você esteja se perguntando por quê. Respondamos uma de cada vez.

  1. Em diálogos de verdade, ao menos no Brasil, as pessoas não repetem o nome uma das outras o tempo todo. É esquisito e pouco natural.

O motivo por trás dessa repetição de vocativos costuma vir de uma tentativa de sinalizar quem está falando. Mas, entenda: as falas das personagens são sagradas. Elas devem representar sua voz e pensamentos, não um recurso enfadonho.

Para sinalizar quem está falando, basta dizer “fulana disse” ou “beltrano disse”, por exemplo.

  1. Quanto ao excesso de formalidade, pense bem. Embora todos aprendamos na escola a escrever frases completas que seguem a norma culta da língua portuguesa, a verdade é que quase ninguém fala assim. Nem mesmo as figuras intelectuais que definem os certos e errados do nosso idioma.

Como você quer que seja a voz das suas personagens: igual a de pessoas de verdade ou semelhante a um padrão ilusório ditado nas escolas? Com qual dessas opções você acha que seus leitores mais se identificariam? A resposta você sabe.

Isso não é uma sugestão para que você escreva de maneira totalmente informal, entretanto. É aí que entra o quesito contexto. Quem é sua personagem? E em qual situação ela se encontra?

Um advogado provavelmente fala de forma diferente que um vendedor ambulante, e esse mesmo advogado deve variar seu estilo de fala em situações profissionais e pessoais. Todos esses elementos contribuem para a voz da personagem, sobre a qual falaremos em breve.

  1. Há também a questão do sotaque. Optar pela transcrição dos sons que se diferenciam do “padrão” muitas vezes resulta em um texto caricato, difícil de ler e entender, e que pode inclusive ser visto como preconceito.

Tente imaginar um ebook escrito por uma pessoa de outro estado, que tenha um sotaque diferente do seu. Não seria um pouco desagradável que cada marca da sua regionalidade fosse transcrita? A tendência é que o leitor que se identificar com o sotaque em questão sinta-se marginalizado e ridicularizado, e isso não é muito legal.

Alternativamente, é possível demarcar os regionalismos utilizando expressões comuns em cada estado, que muitas vezes são tidas com orgulho pelas pessoas que as falam. Por exemplo, a expressão “trem”, um clássico mineiro.

Para tornar os seus diálogos ainda mais reais, é interessante assimilar todo o padrão de construção de frases da região. Embora as variações não sejam tão extremas dentro do mesmo país, podemos notar que os portugueses estruturam suas frases de maneira muito diferente dos brasileiros.

Verossimilhança

Por fim, é importante compreender a diferença entre diálogos reais e diálogos verossímeis, realistas.

Alguns autores, na busca pelo texto perfeito, se dedicam a reproduzir padrões de fala da maneira  mais real possível. Cada detalhe, cada hesitação ou incoerência. E o resultado é péssimo.

Um livro não deve ser uma transcrição da realidade. Isso seria maçante. Não há leitor que aguente.

A arte deve filtrar aquilo que é necessário e interessante na realidade, para então moldar suas obras de maneira que o público possa melhor aproveitá-las. Muitas vezes, isso significa que você deve mudar um texto ligeiramente para que ele seja mais legível e passe as impressões corretas.

As pessoas não pensam cuidadosamente antes de abrir a boca. Elas hesitam, param para pensar, mudam de ideia no meio do caminho, se esquecem do que iriam dizer, repetem suas ideias sem querer, enchem linguiça e até mesmo são chatas com frequência.

Pense em todos os vídeos engraçados que você assiste na internet nos quais pessoas reais são gravadas falando sem roteiro. Agora, tente transcrever suas falas completas, detalhe por detalhe. É provável que o resultado não pareça muito fluente para um texto.

Para exemplificar da maneira mais autêntica possível, temos uma entrevista do SBT onde uma mulher chamada Neide afirma ser atriz de novela e reclama seus supostos direitos. Embora o vídeo seja divertido, todo o impacto da “piada” se perde ao transcrevê-lo. Observe:

— Porque eu assinei uns papéis com a advogada sem saber… meu irmão mandou eu assinar uns papéis. Então, veio a novela das… Eu fiz várias novelas e uma que eu não me esqueço foi da Rubi. Um homem chamado Jeane Silva Rego… m-me… fez eu… uhm… ele me empurrou, então, veio essa novela, eu fiz várias novelas, essa da Rubi fui eu que fiz. Então, eu não quero mais que essa novela da Rubi passe mais na televisão. Eu não vou fazer mais novela. A partir de hoje meu contrato com a SBT e a Globo tá fechado. Não tão me pagando direito. Tô falando é sério, a novela da Rubi não quero mais que passe na televisão. É uma pouca… é uma falta de vergonha. Eu não quero ser mais atriz, eu sou uma dona de casa, uma mulher séria.

Admita, até você ficou com preguiça dessa transcrição. É provável que a maioria dos leitores apenas passaria os olhos rapidamente, procurando as informações importantes, e esse não é o resultado desejado, certo?

Para exercitar um pouco, experimente transformar essa transcrição em uma fala adequada para um livro. Caso seja interessante, você pode até mesmo fazer uma cena completa com base nesse vídeo. A regra é não entediar seus leitores.

Ainda no exemplo dos vídeos, observemos agora os canais de influenciadores digitais. Em cada vídeo, um tópico específico é abordado. Dessa forma, os Youtubers podem ou não escrever um roteiro, mas certamente sabem o que querem dizer. Ainda assim, é possível notar diversos cortes no vídeo.

Cada um desses cortes faz com que o vídeo flua melhor. Eles representam as hesitações, os esquecimentos, os gaguejos, as repetições e até mesmo as partes em que as falas não estavam tão interessantes. E é esse tipo de edição que você deve fazer em seus diálogos.

Da mesma forma, esses vídeos também são editados para que fiquem o menos longo e monótono possível. Mesmo que os telespectadores estejam interessados no assunto do vídeo, pessoas tendem a preferir conteúdo que seja direto ao ponto.

Por isso, é importante dar preferência a diálogos dinâmicos, que não monopolizem todo o texto. Aproveite todos os recursos que você puder aproveitar. Não faça com que apenas uma personagem fale e os outros fiquem quietos. Invista em personalidades distintas e interações emocionantes.

Em um diálogo, até mesmo o silêncio “fala”. Basta se lembrar de todas as conversas que você já teve nas quais uma das partes se silenciou e a outra ficou preocupada, querendo entender o porquê do mau humor, ou quando o assunto se encerra dramaticamente, após mencionar algo trágico.

Um bom diálogo é cheio de “cores”. Ele deve manter o leitor interessado e apresentá-lo mais a fundo à história. E é aqui que entra o próximo quesito: voz e identidade.

A voz e a identidade

Cada personagem de uma história é um indivíduo. Em um universo alternativo, essa criatura fictícia está viva, tem sentimentos, uma história, uma vida, tudo com detalhes que vão além do que se pode imaginar.

Ainda que seu ebook não tenha espaço (e nem seus leitores o interesse) para conhecer cada ínfimo detalhe que sua imaginação permitiu, são essas características que constroem quem a personagem é como um todo e, por sua vez, elas moldam também sua maneira de se expressar.

Na narrativa, existe uma técnica muito popular chamada “show, not tell”. Em português, “não diga, mostre” (tradução nossa). Significa demonstrar o que as personagens sentem e pensam em vez de narrar palavra por palavra.

Por exemplo, em vez de dizer “ele ficou com raiva”, você pode descrever ações que demonstram raiva, como cerrar os punhos, gritar e bater portas. Dessa forma, você não subestima a capacidade de interpretação dos seus leitores e enriquece suas entrelinhas.

As falas das personagens são um dos meios mais significativos de mostrar quem são. Suas origens, onde moram, com quem convivem, grau de escolaridade, interesses, o nível de conforto e liberdade que têm em cada situação, tudo isso está presente na fala.

E, para que o seu texto tenha vida e personalidade, é importante explorar todas essas possibilidades durante os diálogos. O resultado é um texto enriquecido.

Entendemos, no entanto, que falar é mais fácil do que fazer. Nós, escritores, precisamos nos desdobrar em mil para viver a vida de cada uma das pessoas que criamos em nossas cabeças. Muitas vezes o escritor que consegue desenvolver uma personagem completa soa como um louco para os outros.

Escrever é um exercício de curiosidade, criatividade e empatia. Requer disciplina, trabalho duro, vontade de ser e conhecer o outro. É explorar diversos cenários diferentes, reais ou imaginários, é construir o que só se pode ver em palavras. É sentir dor e felicidade que, a princípio, não pertenciam a você.

Por isso, a primeira dica para criar personagens com vozes diversas é saber ouvir. Ouça conhecidos. Ouça estranhos também. Sente-se em um café, uma lanchonete, um banco de praça. Vale até mesmo (ou principalmente) o transporte público, onde pessoas cansadas falam sobre suas vidas para outras.

Preste atenção, então, nos padrões da fala de cada um. Tente identificar o perfil de cada pessoa com base na maneira de falar e mantenha em mente quais foram os elementos marcantes, que permitiram que você formasse esse perfil.

Anote. Imite. Tente de novo. Converse. Escute. Assista. Busque pessoas de todos os tipos e conheça-as. Veja o mundo como um livro e cada pessoa é uma personagem que você está prestes a conhecer. Explore todas as suas possibilidades e lembre-se de registrar suas descobertas.

Por mais divertido e cotidiano que seja, tudo isso é dever de casa e requer disciplina. Ouvimos pessoas o tempo inteiro, mas nada disso é relevante se não prestarmos atenção de verdade. Somente o esforço garante seus avanços.

Após todo esse brainstorming diverso e espontâneo, se você é do tipo organizado, que gosta de planilhas e formulários, pode tentar preparar listas de expressões comuns para cada grupo, ou tentar montar perfis específicos, com exemplos de fala e vícios de linguagem.

O próximo passo é desenvolver diários para suas personagens. Nenhuma maneira melhor de fazer com que o texto flua dentro do estilo de fala de um ser imaginário do que quando o autor veste a camisa e tenta esquecer de si mesmo por um instante.

Esqueça de si mesmo. Seja sua personagem. E escreva. Escreva sobre tudo ou qualquer coisa. Sobre filosofia, decepções ou até mesmo como foi o dia.

No começo, é provável que o texto pareça travado e artificial, mas conforme você deixar a personagem dominar e as palavras fluírem, mais concreto será o estilo que você procura.

Lembre-se que a individualidade é importante. Cada personagem é um ser diferente, que não pode ser confundido com o outro. Por isso, não basta ter somente um diário.

Tente praticar esse mesmo exercício para cada personagem, e regule o nível de dedicação com base na importância. Assim, uma personagem desimportante pode ter apenas um parágrafo ou dois, enquanto o protagonista deve ter páginas e mais páginas.

Caso a sua personagem apareça na história em contextos ou épocas muito diferentes, como por exemplo em flashbacks do passado distante, é interessante experimentar escrever com vozes adaptadas para cada contexto ou realidade. Afinal, você não fala da mesma forma agora e há 7 anos. O mesmo vale para sua personagem.

Considere cada situação, cada possibilidade. Todos esses detalhes valerão muito na caracterização e podem fazer a diferença entre personagens mornas e personagens apaixonantes.

Pessoas se conectam com pessoas. Toda história precisa de boas personagens, mesmo que sejam versões personificadas de elementos inanimados como a terra, o céu, a lua e as estrelas.

Escrever diálogos realistas é uma tarefa complicada, e não são poucos os aspectos a se levar em consideração na hora de escrever uma boa conversa para um livro digital. Por isso, dividimos este conteúdo em duas partes.

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2 Comentários


  1. Conteúdo muito bom!
    Embora já levasse todos esses aspectos em conta na construção dos meus diálogos/personagens, o dilema do “diálogo real x diálogo verossímil” é algo que, vez em quando, inda me prega alguma peça.

    Abraço.

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