5 mitos sobre escrever livros

A maioria dos escritores já deve ter ouvido alguma máxima sobre a escrita pelo menos uma vez na vida. Se há uma coisa que todas as pessoas acreditam ter, é o “bom senso” ou “razão”. E, quando de frente a uma realidade pouco conhecida, o caminho mais comum é criar suposições sobre ela.

Assim, inventam-se os mitos. O disse-me-disse daquilo que não se conhece direito. A escrita, profissão seguida por poucos e rodeada por uma aura “mágica”, típica de qualquer forma de arte, não fica de fora.

Conheça 5 mitos sobre escrever livros e entenda porque são falsos.

1.     A inspiração é essencial para a escrita

Talvez o mito mais propagado sobre a escrita seja a necessidade da inspiração. Isso se dá, provavelmente, devido a enorme quantidade de aspirantes a escritores que nunca consolidaram uma rotina, nem concluíram obra alguma, e ainda se prendem a ela como fonte única da criação.

A verdade é que, para você se tornar um autor profissional que é capaz de produzir livros completos e concretos, a disciplina vem em primeiro lugar. A inspiração é uma dádiva inconstante que, de fato, pode trazer bons resultados.

Mas o que é a escrita sem a prática? Se você sempre espera a inspiração para começar a escrever, é provável que sua técnica de escrita esteja enferrujada e pouco polida, e até mesmo quando a “musa” o visita, o resultado não deve ser nada além de medíocre.

Como diria o pintor e fotógrafo Chuck Close, “a inspiração é para amadores; o restante de nós simplesmente vai lá e trabalha” (tradução nossa). Até os grandes artistas estabelecem rotinas de trabalho rígidas. Ao se dedicar diariamente à escrita, eventualmente a inspiração aprende a acompanhar a rotina, e não o contrário.

2.     Todo escritor tem muito tempo disponível para escrever

Novamente, um mito criado por aqueles que não se consolidaram como escritores. Dizer que é necessário tempo livre para poder escrever não passa de uma desculpa daqueles que não escrevem.

Tempo é uma questão de prioridades. Todos os dias são feitos de 24h para dividirmos em trabalho, alimentação e descanso. Parece pouco tempo para nós, mas quantas dessas horas não são gastas com procrastinação ou outras coisas supérfluas?

Não estamos recomendando que você desista das suas horas de lazer, apenas considere dedicar no mínimo meia-hora por dia à escrita. Pode parecer muito pouco, mas ainda é melhor do que nada. Com um balde d’água de cada vez, pode-se encher uma piscina.

Um bom escritor não necessariamente tem tempo disponível para escrever. A verdade é que ele cria esse tempo, como qualquer pessoa interessada em algo de verdade é capaz de fazer.

3.     Conhecimento gramatical faz um bom escritor

A origem desse mito não é tão óbvia, mas há suspeitas de que ela vem da metodologia focada em gramática das aulas de português das escolas brasileiras.

Não, saber gramática não o tornará um bom escritor. Saber gramática só indica que você sabe gramática, nada mais, nada menos. O lado positivo? Com bom conhecimento gramatical, você está um passo mais próximo de dominar a norma culta e entender como a língua funciona.

É útil para ser aceito em ambientes da elite intelectual, revisar textos, publicar artigos, entre outros, mas nunca será substituto do know-how da escrita.

Por isso, aprenda gramática, mas também leia muitos livros e, principalmente, escreva diariamente. Somente a prática leva à perfeição (ou quase lá).

4.     Talento é imprescindível

Assim como o conhecimento gramatical não o tornará um bom escritor, também não existe talento que supere a experiência.

De fato, algumas pessoas tem mais facilidade para desempenhar certas tarefas do que outras. Existem diversos tipos de inteligência diferentes, que determinam o tipo de função que cada indivíduo está mais apto a ocupar.

No entanto, a inteligência nada mais é do que um balde vazio, que só tem valor quando é preenchido pelo conhecimento. Mesmo o mais talentoso dos escritores perceberá uma diferença brutal entre seus primeiros textos e aqueles que foram escritos depois de muita prática.

Pense na fábula da tartaruga e da lebre. Apesar de toda a aptidão e velocidade da lebre, ela subestimou a sua oponente e descansou em vez de se dedicar à corrida. A tartaruga, obstinada, seguiu firme com seus passos lentos e venceu a disputa.

Cada indivíduo tem seu próprio ritmo, suas qualidades e dificuldades. Mesmo que você não acredite ter talento para a escrita, o que por si só já é discutível, é o seu esforço que realmente fará a diferença.

Escrever não é fácil, mas com dedicação, qualquer pessoa pode se tornar um escritor.

5.     Existe uma verdade universal sobre técnicas de escrita

Por fim, o maior mito de todos, e este foi criado pelos escritores de sucesso, é de que existe uma verdade universal sobre como se deve escrever.

O que acontece é: muitos escritores, ao testarem uma técnica e perceberem que ela funciona, acreditam que esse teste é à prova de erros e pode servir para toda e qualquer pessoa. A realidade é muito mais complexa do que isso.

Dizer que existe uma receita mágica para o sucesso na escrita é como dizer que só existe um caminho para a felicidade, que deve ser seguido por todos. Somos indivíduos com características únicas, e a maneira que escolhemos viver e trabalhar diz respeito a nós mesmos.

Para cada técnica milagrosa que é defendida como a única maneira correta de se escrever, existem incontáveis escritores maravilhosos que trabalham de forma diferente.

Isso não significa que você nunca deve ouvir conselhos. A questão é entender que são apenas conselhos, e não regras. O interessante é experimentar as mais diversas técnicas, mesmo aquelas que se opõem uma à outra, como planejar o enredo ou desenvolvê-lo conforme escreve, e descobrir quais se adequam melhor a você.

A lição do dia é: nada substitui a experiência. Escreva, escreva muito e diariamente. Não se desencoraje, nem se iluda com mitos ou disse-me-disse. Somente você pode descobrir seu próprio potencial. Somente você pode conhecer sua relação com a escrita.

E você? Já desbancou algum mito desde que começou a escrever?

4 Comentários

  1. Sarah Voronkoff

    Concordo com tudo!

    Pra ficar craque em alguma coisa, tudo o que precisa é de foco e disciplina. Um artista que treina todos os dias será um artista talentosíssimo.

    Muito bom o texto.

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  2. Não concordo com quase tudo ou concordo com quase nada. Acho que nada substitui o talento e a inspiração é essencial para se produzir literatura de boa qualidade. Escrever artigos para jornais, crônicas não poéticas, teses, etc. depende sim, somente de prática e esforço, mas produzir a verdadeira literatura requer inspiração e talento e é para poucos.
    Se você colocar um menino para chutar uma bola oito horas por dia, dar a ele os melhores técnicos, preparadores físicos, fisiatras e a melhor preparação do mundo, se ele não tiver talento, jamais será um craque de bola. A genialidade é inata, você pode aperfeiçoar a técnica, o preparo físico, mas se ele não tiver o talento inato, não vai virar nada. Assim é com a literatura (falo da literatura de qualidade, que está, sim, no campo da ARTE.

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    1. Marlon

      Sobre a analogia com futebol, acompanhe a carreira do jogador português Cristiano Ronaldo. Ele é a prova que até mesmo o futebol bem jogado advém de muito esforço e dedicação. Considero que é leviano confiar em algo nato para escrita de livros, visto que os grandes autores era disciplinados e persistentes. Pesquise um pouco sobre George Orwell e suas batalhas pra escrever sobre temas que não compreendia muito.

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